Publicada em 14/07/2017 às 10h22. Atualizada em 20/07/2017 às 10h08

A escuta psicanalítica na saúde mental: da universalidade à singularidade do sujeito

Entenda porque ser ouvido é tão importante, nos casos de depressão e outros transtornos psíquicos.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Nos dias de hoje, muitos sujeitos buscam atendimento na saúde pública para aliviar o seu sofrimento. As questões inerentes ao atendimento dos “deprimidos” atravessam o cotidiano dos profissionais de saúde, principalmente daqueles que atuam de forma direta no trabalho com a saúde mental. A lógica capitalista e espetacular da contemporaneidade tem sido interpretada como condição para uma maior incidência dos estados depressivos de uma forma geral, uma vez que se observa, nesse contexto, transformações socioculturais que têm impactado na produção de novas formas de subjetivação.

Os dispositivos para atendimento clínico em saúde, especificamente os dispositivos de saúde mental, configurar-se-iam como um lugar onde sujeitos podem buscar ajuda profissional para alívio dos seus mal-estares, uma vez que há alguém que o escute na sua dor.

A reforma psiquiátrica, iniciada na década de 1970, teria possibilitado o surgimento de dispositivos de tratamento substitutivos ao modelo manicomial. A proposta da reforma reconfigurou o quadro da assistência em saúde mental, no Brasil, a partir da criação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), das Residências Terapêuticas, dos Ambulatórios de Saúde Mental, entre outros dispositivos.

Os CAPs compõem a Rede de Assistência Psicossocial (RAPs) acolhendo os pacientes com transtornos mentais que apresentam intenso sofrimento psíquico, os quais, geralmente, se veem impossibilitados de viver e realizar seus projetos de vida. Os CAPs visariam estimular a integração social e familiar dos sujeitos, apoiando-os em suas iniciativas de construção da autonomia, oferecendo-lhes atendimento médico e psicológico. Nessas instituições, os profissionais de saúde seriam responsáveis em construir um projeto terapêutico em colaboração com o usuário que está sendo atendido.

O trabalho nos CAPs deve se dar na articulação entre os profissionais que compõem a equipe multidisciplinar. Nas práticas desses profissionais de saúde, estariam presentes várias orientações clínicas, de acordo com a visão de mundo e de sujeito de cada um desses profissionais. Desse modo, essas práticas vão desde as que privilegiam a reabilitação psicossocial e o resgate dos direitos de cidadania dos usuários, até aquelas que tomam como eixo a singularidade do sujeito, por exemplo, a clínica de orientação psicanalítica, sendo ela uma das alternativas para o tratamento no contexto da saúde mental. Nessa direção, a psicanálise não seria uma teoria que se apresentasse unicamente como proposta científica para o tratamento do sofrimento psíquico, podendo ser uma alternativa entre outras práticas que ocorrem na saúde pública, considerando a crescente interlocução da psicanálise com esses contextos.

Na saúde pública, a entrada da psicanálise e, consequentemente, da escuta psicanalítica, ocorreriam, geralmente, através do profissional psicólogo, fato ainda hoje comum, pois não existe nos quadros funcionais o cargo de psicanalista.

A prática da psicanálise nos dispositivos de saúde mental teria como objetivo primordial propiciar uma escuta diferenciada a quem está em sofrimento, permitindo que os sujeitos falem de seu mal-estar com seus próprios significantes, o que, na maioria das vezes, não ocorre nos tratamentos psiquiátricos praticados nos dispositivos de saúde mental.

A singularidade do sujeito na psicanalise é posta em relevo quando se pensa no tratamento oferecido, uma vez que se considera caso a caso e não se propõe tratamentos uniformes. Com relação às depressões, o  atendimento psicológico que, nos CAPs, comumente é um dos últimos recursos a ser procurado pelo paciente na tentativa de cura e alívio de seu sofrimento. Supõe-se que isso se deva a um desconhecimento das possibilidades da psicologia como tratamento por grande parte da população. Somado a isso, está a cultura medicalizante que traz uma ideia de alívio rápido para o sofrimento, perdendo-se aí a possibilidade de compreensão de que os estados depressivos fazem parte da existência humana, não necessariamente correspondendo a uma psicopatologia.

"A singularidade do sujeito na psicanalise é posta em relevo quando se pensa no tratamento oferecido, uma vez que se considera caso a caso e não se propõe tratamentos uniformes."

A medicalização da depressão como prática frequente no contexto da saúde mental aponta para uma direção na qual se busca (re)mediar os sintomas, a ponto de se desconsiderar a sua dimensão subjetiva. As bulas dos fármacos, por exemplo, mais especificamente dos antidepressivos, contêm uma descrição médica sobre o fenômeno da depressão ao passo que sugere promessas de cura terapêutica embutida em pílulas “mágicas”.  Ao fazer uso exclusivamente dessa possibilidade de tratamento, o sujeito, por vezes, coloca em suspensão o seu próprio rótulo de deprimido, mas sem livrar-se dele ou dar sentido ao seu sintoma, sustentando-se na farmacologia como alcance possível para alívio do seu sofrimento.

Desse modo, qual seria a contribuição da escuta psicanalítica aos sujeitos com queixa de depressão? A escuta psicanalítica iria de encontro com a  clínica do campo das especialidades médicas, privilegiando o singular  de cada caso, levando o indivíduo a ressignificar o seu existir e tendo como efeito possível que ele possa desalienar-se de rótulos psicopatológicos.

A escuta ao inconsciente significaria privilegiar as cadeias significantes primordiais que determinam no sujeito suas ações, suas fantasias, seus sintomas, ou seja, as vias por onde corre seu desejo. Porém, é importante considerar a escolha do sujeito no que se refere à adesão ou não ao tratamento, uma vez que existem várias concepções teóricas no contexto da saúde mental.

No CAPs, observa-se que os sujeitos, plenamente identificados com seu diagnóstico de depressão, nem sempre estão dispostos ao trabalho pela via do inconsciente como uma das possibilidades de alívio para o seu sofrimento, tendo em vista que o sofrimento também pode se constituir como um modo de gozar. Nesse sentido, a escuta do sujeito deve constituir-se a partir de uma relação terapêutica de confiança entre o paciente e o profissional que o acompanha desde o primeiro momento.

Nessa relação, o sintoma apresentado pelo paciente, o profissional, cuja orientação é a psicanálise, deveria evitar o ‘furor sanandi’ (desejo de curar) de exigir a suspensão do sintoma, uma vez que não se trata de barrar o sujeito, mas, mediante escuta e intervenções feitas pelo profissional, proporcionar o tempo subjetivo da experiência, cujas elaborações no processo de atendimento favoreçam ao sujeito se haver com o seu sintoma.

"A escuta psicanalítica (...) não ganha contornos de sessões de análise, mas busca proporcionar ao sujeito a responsabilização por suas escolhas como ser desejante e por novos modos de se definir enquanto sujeito."

Com efeito, a escuta psicanalítica nos dispositivos de saúde mental torna-se possível mediante o vislumbre de uma clínica que se amplia na interlocução com outros saberes e práticas dentro de uma equipe multiprofissional. A escuta psicanalítica, nesse contexto, não ganha contornos de sessões de análise, mas busca proporcionar ao sujeito a responsabilização por suas escolhas como ser desejante e por novos modos de se definir enquanto sujeito.

Por fim, ressalta-se que, além da saída farmacológica encontrada pelos sujeitos depressivos para lidar como seu sofrimento, faz-se necessário enfatizar que o atendimento psicológico na área da saúde e, mais especificamente no campo da saúde mental, configura-se como uma possibilidade de os sujeitos falarem de si, de seu sofrimento e do seu mal-estar. Isso requer que os profissionais da saúde tenham um olhar e uma escuta sensíveis para com os sujeitos que buscam atendimento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente artigo pretendeu traçar um breve panorama das características da contemporaneidade que possivelmente teriam relação com o aumento dos diagnósticos de depressão na atualidade. Considerou-se as mudanças paradigmáticas, entre os referenciais que conduziam o sujeito em épocas passadas e o modo de vida que se estabelece na contemporaneidade (uma sociedade espetacular, narcisista, fluida e vazia de referenciais sólidos), como produtoras de mal-estares.

Desse modo, enfatizou-se que cada época criaria suas formas particulares de adoecimento que expressariam, de forma exacerbada, as estruturas da organização social vigente, dado que é sob as determinações da cultura que o mal-estar se constitui. Assim sendo, os sujeitos contemporâneos provavelmente não reconhecem o sofrimento como processo intrínseco à condição humana, sucumbindo, por vezes, à (de)pressão e ao desejo perdido de seus ideais por não corresponderem às exigências da cultura de sua época.

Foi possível compreender que a psicanálise, por sua vez, interpreta os estados depressivos como sintomas que podem se manifestar em qualquer momento da vida do sujeito considerando a sua inserção na cultura. Ao lado disso, percebeu-se que os mal-estares contemporâneos são rapidamente tratados como uma possível doença, como o que ocorre na depressão. Reconhece-se, dessa forma, que lidar com os mal-estares na sociedade contemporânea parece não ser tarefa fácil, levando os sujeitos a fazerem escolhas que aliviem o sofrimento de forma rápida, na mesma rapidez do tempo no qual se vive. O que se observa é que a contemporaneidade pode ser vista como uma era que não favorece um “tempo para sofrer”, assim como não há tempo para o sujeito se envolver com o seu próprio mal-estar, buscar suas causas, responsabilizar-se pelo seu sintoma e construir novas maneiras de lidar com ele.

Na tentativa de extirpar o mal-estar, busca-se soluções rápidas que não permitem qualquer elaboração subjetiva, lançando mão de medicamentos psicotrópicos como alternativa possível para os mal-estares. Nesse contexto, surge o fenômeno da medicalização do sofrimento, tão facilmente observado nos dias de hoje. Uma medicalização (des)medida na intensidade do sofrimento, haja vista que quanto maior a dor, aqui compreendida como dor de existir, mais recursos farmacológicos são usados, tendo em vista que o sujeito busca estar em acordo com alguns imperativos da sociedade atual: Não sofra! Satisfação já! Seja feliz!

"Na tentativa de extirpar o mal-estar, busca-se soluções rápidas que não permitem qualquer elaboração subjetiva, lançando mão de medicamentos psicotrópicos como alternativa possível para os mal-estares." 

É importante frisar que não se buscou resumir os sujeitos aos seus sintomas, nem desconsiderar os benefícios dos fármacos psicotrópicos e a importância da psiquiatra no tratamento da depressão. O que se ressalta aqui é que os sintomas fazem parte, eles mesmos, da estrutura discursiva dos sujeitos e que o uso indiscriminado e excessivo dos medicamentos pode favorecer para que o sujeito desapareça e seja visto tão somente como uma patologia, como acontece, por vezes, no modelo biomédico psiquiátrico.

Conclui-se que a escuta é um instrumento essencial do trabalho clínico e psicossocial, na medida em que falar pressupõe um endereçamento ao outro e, portanto, um engendramento do laço social. A escuta clínica oportuniza ao sujeito falar de si e do seu sofrimento, dando mobilidade ao campo do simbólico e aos profissionais da saúde, uma vez que lhes possibilita mais sensibilidade no trato com o sofrimento dos sujeitos.  A escuta psicanalítica, no campo da saúde mental, entra como uma das práticas, entre tantas outras, de tratamento nesse contexto, posicionando-se de forma distinta na contemporaneidade diante das novas formas de subjetivações, dos sofrimentos, ou seja, dos sintomas enquanto efeitos do social.

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