Publicada em 10/09/2018 às 16h15. Atualizada em 17/09/2018 às 14h40

Colesterol x Fatores de Risco

Você sabia que o famoso colesterol alto pode estar ligado à sua herança genética? Confira a entrevista.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Muito apontado em exames de sangue de rotina, o colesterol alto, ou melhor, a hipercolesterolemia pode ser causada por diversos fatores, como a alimentação inadequada, o sedentarismo e até a herança genética. O iSaúde Brasil procurou ir mais a fundo no assunto, em um bate-papo com o médico-cardiologista Joel Alves Pinho Filho. Saiba mais.

 

iSaúde Brasil – Muitos pensam que o colesterol alto está relacionado apenas ao sedentarismo e a hábitos alimentares não saudáveis, porém o fator genético também está associado ao elevado nível de colesterol. Altos níveis de colesterol só podem ser herdados dos pais ou existem casos em que a pessoa herda essa condição genética dos avós?

Joel Alves Pinho Filho – As dislipidemias podem ser secundárias a doenças, como hipotireoidismo, Síndrome Nefrótica, Diabetes, entre outras condições, e estas devem ser identificadas e controladas para se conseguir uma adequada redução dos lipídios circulantes. 

Mais frequentemente, a hipercolesterolemia familiar (HF) é a condição subjacente. A HF é uma doença genética do metabolismo das lipoproteínas, cujo modo de herança é coautossômico dominante e se caracteriza por níveis muito elevados do colesterol da lipoproteína de baixa densidade (LDL-c), e pela presença de sinais clínicos característicos, como xantomas tendíneos (concentração de colesterol nos tendões) e risco aumentado de doença arterial coronariana prematura. O ponto de partida para se considerar a possibilidade diagnóstica de HF é a concentração de LDL-c maior ou igual a 190mg/dL em adultos.

A HF é uma das doenças monogênicas herdadas mais comuns na população geral. A frequência da HF na sua forma heterozigótica é de cerca de 1:500 indivíduos, sendo muito rara na forma homozigótica (quando a condição é herdada de ambos os pais), onde se estima uma frequência de 1:1.000.000 de indivíduos.

Em pacientes heterozigotos, um gene defeituoso para o receptor de LDL é herdado de um dos pais e um gene normal, do outro. Como dois genes funcionais são necessários para manter o nível plasmático normal de LDL-c, a ausência de um gene funcional causa um aumento no nível de LDL para, aproximadamente, duas vezes o normal já na infância.

Os pacientes homozigotos herdam dois genes defeituosos, consequentemente os receptores de LDL não têm funcionalidade e os pacientes têm uma hipercolesterolemia grave (650 a 1.000 mg/dL).

iSaúde Brasil – Uma reportagem feita pelo Jornal da Record mostrou uma criança, com um ano de idade, que já tinha sido diagnosticada com colesterol alto, devido ao fator genético. Em casos como esse, quais as medidas recomendadas para controlar o colesterol da criança?

Joel Alves Pinho Filho – Estatinas potentes, em doses adequadas, são a primeira escolha para redução do LDL-c em portadores de HF. O uso de estatinas diminui significativamente o colesterol total, LDL-c e apolipoproteína B, sem, aparentemente, a ocorrência significativa de efeitos adversos, relacionados ao desenvolvimento sexual e à toxicidade muscular ou hepática, sendo um procedimento indicado a partir dos 8 anos de idade.

Em intolerantes a estatinas, pode-se tentar doses reduzidas, em combinação com outros hipolipemiantes, como a ezetimiba, a niacina (ou ácido nicotínico) ou a colestiramina. Para os pacientes que não podem usar a estatina, está indicada a terapia combinada de niacina, ezetimiba e/ou colestiramina. O uso de ezetimiba como monoterapia diminui, em cerca de 28%, os valores de LDL-c em crianças com hipercolesterolemia familiar heterozigótica. Recomenda-se o seu uso como monoterapia a partir dos 5 anos e em associação com estatina acima de 8 anos, diminuindo os efeitos colaterais dessas substâncias.

A PCSK9 regula as concentrações de colesterol plasmático, por inibir a captação de LDL pelo seu receptor hepático. Indivíduos que apresentam mutações relacionadas à redução de função de PCSK9 têm concentrações mais baixas de LDL-c e menor risco de doença cardiovascular. Foram desenvolvidos anticorpos e moléculas antissenso para a PCSK9, e estudos recentes confirmam resultados clínicos animadores para o seu uso. Entretanto, em crianças, desconheço a existência de estudos que embasem o seu uso nessa população. 

Terapias alternativas não farmacológicas podem ser tentadas em casos de hipercolesterolemia familiar (HF), em refratários ao tratamento medicamentoso, como: cirurgia de bypass ileal, plasmaférese e transplante hepático.

Classicamente, a aférese pode ser realizada em portadores de HF homozigótica; contudo, pode ser uma alternativa também para heterozigóticos graves, refratários ao tratamento farmacológico. Pequenos estudos mostram, além de uma redução do LDL-c e Lp(a), a regressão de xantomas e lesões coronarianas anatômicas.

iSaúde Brasil – Níveis elevados de LDL (colesterol ruim) levam ao aumento de gorduras nas artérias. Dentre as gorduras trans e saturadas, qual é a mais perigosa para o organismo?

Joel Alves Pinho Filho – Os ácidos graxos são denominados trans quando os hidrogênios ligados aos carbonos de uma insaturação encontram-se em lados opostos. Dentre os vários componentes dietéticos, são os ácidos graxos trans (AGT) que mais aumentam LDL-c, seguidos dos ácidos graxos saturados, que também aumentam HDL-c e não alteram a relação CT/HDL, se comparados ao consumo de carboidratos. Os óleos refinados apresentam níveis razoavelmente pequenos (1,0%-1,5%) de AGT, mas, a sua reutilização, especialmente no preparo de alimentos fritos, pode tornar significativa a sua contribuição na ingestão diária de AGT. O alto consumo de ácidos graxos trans, provenientes de alimentos industriais, está associado ao aumento de doença arterial coronariana. A principal fonte de gordura trans, na dieta, é a vegetal hidrogenada, utilizada, industrialmente, na produção de biscoitos, bolachas recheadas, empanados, sorvetes cremosos, tortas e alimentos comercializados em restaurantes fast-food. Embora esses ácidos graxos sejam abundantes nas margarinas duras, representam apenas 10% do consumo de gorduras trans, sendo os alimentos industrializados a maior fonte.

iSaúde Brasil – As gorduras insaturadas possuem alguma influência sob as taxas de colesterol no sangue?

Joel Alves Pinho Filho – Os ácidos graxos poli-insaturados abrangem as famílias de ácidos graxos ômega-3 e ômega-6 e são obtidos por meio da dieta, ou produzidos no organismo a partir dos ácidos linoleico e alfalinolênico, pela ação das enzimas alongase e dessaturase. As alongases atuam adicionando dois átomos de carbono à parte inicial da cadeia, e as dessaturases oxidam dois carbonos da cadeia, originando uma dupla ligação com a configuração cis.

Os ácidos linoleico e alfalinolênico estão presentes tanto em espécies vegetais como animais, na nossa alimentação: nas hortaliças, sobretudo as de cor verde-escura, nas leguminosas e nos cereais (aveia, arroz, feijão, ervilha, soja); na carne, estão em peixes, sobretudo nos de origem marinha, como o salmão e a sardinha.

O conceito mais aceito é o de que o consumo de ácidos graxos monoinsaturados (MUFA) não afeta, significativamente, os níveis de colesterol total circulante. Os ácidos graxos poli-insaturados (PUFA), como o Ômega-6, em elevadas quantidades, podem provocar pequenas reduções nas concentrações séricas de HDL-c. Já os ácidos graxos Ômega-3 podem diminuir as concentrações de triglicerídeos (efeito secundário à redução da síntese de VLDL-c), sendo recomendado o consumo de duas a três porções de peixes/semana.

iSaúde Brasil – Qual é o tempo médio gasto para que uma placa – denominada ateroma – se desenvolva devido ao excesso de LDL nas artérias?

Joel Alves Pinho Filho – O desenvolvimento da doença aterosclerótica é progressivo e já se inicia na infância. Assim, estrias gordurosas nas paredes vasculares de crianças mortas violentamente foram identificadas, bem como pequenas placas ateroscleróticas em soldados falecidos nas guerras recentes, atestando que a doença leva décadas para desenvolver a placa e para, consequentemente, poder provocar um quadro isquêmico agudo. Diversos outros fatores fazem com que o quadro agudo aconteça mais rapidamente, funcionando como aceleradores, dentre os quais estão: a hipertensão, o tabagismo, o uso de drogas ilegais etc.

Nas formas heterozigóticas de HF, o evento coronariano costuma ocorrer, antes dos 55 anos, nos homens, e, antes dos 65 anos, nas mulheres. Nas formas homozigóticas, quadros graves ocorrem já na infância e adolescência.   

iSaúde Brasil – Existem remédios caseiros indicados para o controle de colesterol no organismo?

Joel Alves Pinho Filho – Esse é um mito muito difundido. Chás e infusões de berinjela são muito utilizados pela população, contudo nada tem sido comprovado.

Uma dieta equilibrada, com hortaliças, frutas, legumes, carne magra, frango e peixe é a melhor maneira de se prevenir. Consumo de nozes, castanhas e linhaça, ajudam também. Evitar fritura e usar a grelha ou o forno reduz bastante o consumo diário de gordura, ajudando, assim, no controle do colesterol.

iSaúde Brasil – Quais são as medidas preventivas que podem ser tomadas para reduzir a possibilidade de aumento do colesterol LDL?

Joel Alves Pinho Filho – Além  de fazer a dieta recomendada acima, é preciso praticar atividade física regular, procurando manter o peso ideal. Essas são as medidas preventivas mais eficazes. De resto, é esperar que a natureza não o tenha contemplado com uma carga genética ruim e com mutações responsáveis pelas diversas formas hereditárias de dislipidemia.

Palavras Chave:

CARDIOLOGIA coração colesterol
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