Publicada em 16/07/2011 às 10h27. Atualizada em 27/07/2011 às 16h54

Com leite, suco ou água?

Muitas vezes omitida nas receitas dos médicos, a forma de se tomar remédios pode influenciar na eficácia de sua ação no organismo.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Para obter o máximo de benefícios de seu tratamento com remédios, é necessário usá-los corretamente. O consumo de remédios, mesmo quando prescrito por médicos, deve seguir procedimentos específicos. Além da automedicação, tomar o medicamento de forma inadequada também oferece riscos à saúde. E, quando não chega a ser perigoso para a saúde, isso pode, no mínimo, levar a resultados indesejados, como o medicamento não funcionar como se espera (perda da eficácia da fórmula). Nos casos mais graves, efeitos colaterais ou interações medicamentosas inesperados.

“Além da automedicação, tomar o medicamento de forma inadequada também oferece riscos à saúde”.

É preciso perguntar sempre ao médico como e com quê líquido devem ser administrados comprimidos, cápsulas e drágeas. Em geral, a maioria dos medicamentos é prescrita para ser tomada com água, mas nem sempre isso é realmente necessário. Da mesma forma, pode acontecer de alguém tomar determinado remédio com outros líquidos ou mesmo alimentos e, com isso, atrasar ou diminuir o seu efeito.

Esse aspecto do tratamento médico é, em geral, tão pouco levado em conta que há quem chegue a ingerir remédios com refrigerantes – o que obviamente não é uma forma nada recomendável, podendo causar inclusive intoxicações. A explicação é simples: alguns refrigerantes inibem as enzimas do fígado, o que bloqueia o processo de eliminação das substâncias do medicamento depois que a parte que interessava já foi devidamente absorvida pelo estômago.

“Alguns refrigerantes inibem as enzimas do fígado, o que bloqueia o processo de eliminação das substâncias do medicamento depois que a parte que interessava já foi devidamente absorvida pelo estômago”.

Da mesma forma, os aparentemente inofensivos chás também não são necessariamente tão recomendáveis assim. Uma informação pouco divulgada sobre eles é que os chás modificam o movimento estomacal, o que acaba retardando bastante a absorção dos remédios pelo organismo. Isso vale especialmente para os chás de camomila, hortelã, erva-doce e capim-limão. O consumo desses chás junto com determinados medicamentos pode aumentar em até três vezes o período normal de absorção da fórmula pelo organismo.

Outros aspectos a serem levados em conta são as propriedades individuais de cada tipo de chá. Sabe-se, por exemplo, que o consumo de ácido acetilsalicílico (AAS) simultaneamente ao de chás como o de camomila, que apresenta ação anticoagulante, pode ocasionar sangramentos.

Ao ingerirmos um comprimido, drágea ou cápsula, primeiro o remédio segue para o estômago, onde se transforma em líquido. Num momento seguinte, ele é distribuído no organismo e se conecta a um receptor, o que permite que a ação farmacológica esperada aconteça. A eliminação da parte do medicamento que não tem mais interesse para esse processo ocorre por conta das enzimas do fígado.

Aqui vale ressaltar uma curiosidade: remédios para hipertensão não devem ser tomados com suco de laranja porque o suco ativa as enzimas digestivas e destrói parte do medicamento – até 50%, em alguns casos. Há medicamentos que o recomendável é que sejam ingeridos com o estômago cheio, porque podem causar uma irritação gástrica se ingeridos com o estômago vazio.

Embora seja óbvio, nunca é demais lembrar que não é recomendável a administração de medicamentos com bebidas alcoólicas. Mas a restrição, no caso, não é porque o álcool iniba a ação do medicamento (como muitas pessoas erroneamente pensam). A questão é que há medicamentos que ao serem administrados junto com bebidas alcoólicas podem ter seu efeito potencializado ou diminuído. Outros podem causar problemas graves se tomados desta forma, a exemplo de calmantes, antidepressivos, ansiolíticos e anorexígenos.
 
Alternativas

Para muitas pessoas, tomar determinados remédios é um “sacrifício”. Ou pelo gosto desagradável do medicamento, ou pelo seu formato, muitos chegam até a sentir ânsias de vômito. Nesses casos, não há problema em que a pessoa beba água após a ingestão deste medicamento. O mais recomendado, no entanto, é buscar formas diferenciadas de consumo. É o que os laboratórios fazem com os remédios voltados para as crianças, sempre com essências e sabores mais adocicados.

Outra dúvida bastante comum é sobre se o paciente pode amassar ou triturar os comprimidos. Embora o mais acertado seja procurar no mercado farmacêutico o mesmo remédio em forma líquida, não é raro que as pessoas prefiram optar pela primeira alternativa. Dissolver medicamentos sob a língua também não é correto, a não ser em casos específicos. Comprimidos devem ser dissolvidos no estômago, ou corre-se o risco de anular seu efeito.

Embora muitos médicos cheguem a prescrever desta forma, não é recomendado que pacientes tentem  dividir comprimidos pela metade. A razão é simples: não há como garantir que a metade (física) do comprimido apresente exatamente 50% de todos os compostos usados na fórmula. A garantia firmada pelos laboratórios quanto à eficácia de seus produtos refere-se ao comprimido inteiro. Guardar o remédio que já foi partido ao meio é ainda mais perigoso quando se trata de antibióticos em drágeas.


 
Cuidado com o leite

Assim como o suco de laranja, o leite é um alimento e, por isso, estimula a produção de sucos digestivos e ativa as enzimas do estômago. Muitos medicamentos podem ter seus efeitos reduzidos ou mesmo neutralizados por causa do suco gástrico liberado pelo organismo. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o cálcio e outros nutrientes do leite podem promover a perda do efeito terapêutico pela inativação química (quelação), reação comum entre essa bebida e a tetraciclina.

A Anvisa também alerta para aquelas pessoas que costumam tomar antiácidos antes de outros medicamentos que eles podem cortar integralmente o efeito do remédio, porque diminuem a absorção do princípio ativo ou por serem absorvidos juntos.
Se os medicamentos forem voltados para adultos da terceira idade (pessoas com 65 anos de idade ou mais) ou crianças, peça instruções específicas a seu médico. Estes dois grupos de pacientes podem ser mais sensíveis a dosagens altas e efeitos colaterais do que adultos jovens e de meia-idade.

Com o envelhecimento, o funcionamento dos rins, fígado e outros órgãos do corpo sofre alterações. Idosos podem ter menos capacidade de quebrar os compostos e eliminar os remédios do organismo. Recomenda-se que pessoas mais velhas tenham doses iniciais menores de medicamentos e que essas doses sejam aumentadas gradualmente

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Autor(es)

  • Rodrigo Villela / CRM BA 11982

    Médico Gastroenterologista do Ambulatório Docente-Assistencial da Bahiana (ADAB).

Alternativas

Para muitas pessoas, tomar determinados remédios é um “sacrifício”. Ou pelo gosto desagradável do medicamento, ou pelo seu formato, muitos chegam até a sentir ânsias de vômito. Nesses casos, não há problema em que a pessoa beba água após a ingestão deste medicamento. O mais recomendado, no entanto, é buscar formas diferenciadas de consumo. É o que os laboratórios fazem com os remédios voltados para as crianças, sempre com essências e sabores mais adocicados.

 

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