Publicada em 08/02/2017 às 14h49. Atualizada em 09/02/2017 às 09h19

Como o paciente dependente de álcool é recebido nas unidades de saúde do SUS?

Confira este artigo sobre o acolhimento ao paciente alcoolista nos serviços de urgência e emergência.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"Desde a metade do século 20, a dependência  química passou  a ser discutida  pela área da saúde, sendo considerados pacientes  aqueles  que  consumiam, de forma abusiva, os diferentes  tipos  de substâncias."

Desde a metade do século 20, a dependência  química passou  a ser discutida  pela área da saúde, sendo considerados pacientes  aqueles  que  consumiam, de forma abusiva, os diferentes  tipos  de substâncias. A assistência  era ofertada de acordo com sinais,  sintomas e transtornos mentais, que por vezes eram vinculados à condutas  associadas ao desvio de caráter.

Dentre as substâncias, o álcool é considerado a droga mais consumida desde os relatos  bíblicos, porém, o alcoolismo começou a ser tratado como doença na primeira metade  do século 19, com o intuito de promover tratamento a todos os indivíduos que apresentavam complicações por fazerem uso contínuo e abusivo de álcool. Estes indivíduos não recebiam qualquer tipo de atenção à saúde, por estarem diretamente ligados à vergonha de carregar o estigma do abuso da substância.

Em 1977, foi adotada  pela Organização  Mundial da Saúde (OMS) a definição da dependência de álcool como uma “síndrome  com contínuo de gravidade, tendo duas distinções  claras: o uso  e a dependência”.  Desde então, essa síndrome  é considerada  um problema  que atinge de 10 a 12% da população mundial. Fatores como gênero, etnia, idade, ocupação, grau de instrução e estado civil podem estar relacionados ao uso abusivo de álcool, tendo como consequência a dependência.

No Brasil, cerca de 11% da população masculina e 2% da feminina consomem álcool diariamente, não havendo consumo isento de riscos. Entre esses riscos podemos, citar uma forma de consumo conhecida como binge (consumo excessivo esporádico), na qual ocorre a ingestão de cinco ou mais doses de álcool para homens e quatro para mulheres  em um mesmo  período. Além disso, cerca de 13% da população de todo o país é dependente de álcool, e estima-se que, no estado de São Paulo, a dependência  atinja dois milhões de pessoas.

Há muitos anos o álcool - com o seu consumo contínuo e abusivo – vem sendo considerado a droga psicoativa com maior uso entre as populações de todo mundo, fato tão importante registrado nos últimos anos por causar inúmeros danos à saúde física e psicológica dos indivíduos, e ser avaliado como problema de saúde pública.

O alcoolismo é reconhecido  como um fator de fragilização da saúde da população em situação de rua, sendo  pessoas excluídas das estruturas convencionais da sociedade, vivendo na linha da indigência ou pobreza absoluta.Há um consenso  da associação entre alcoolismo e população de rua e, frente a este panorama,  há a ocorrência de grande suscetibilidade  a outras enfermidades, que por vezes necessitam de cuidados em nos diversos níveis de complexidade do Sistema  Único de Saúde (SUS).

Embora um grande contingente da população conviva com o alcoolismo, ainda existe um estigma que permeia a entrada do indivíduo alcoolizado ou dependente de álcool nos serviços de urgência e emergência,  gerando atitudes  de desprezo  e marginalização do doente. No âmbito  do SUS, o acolhimento apresenta-se como uma das diretrizes da Política Nacional de Humanização  (PNH) e tem como principal proposta descentralizar  a abordagem médica,  multiplicando as orientações de acordo com a demanda, melhorando o ambiente  e a escuta profissional das expectativas de resolução dos problemas de saúde dos pacientes.

O acolhimento no SUS não se trata apenas do uso de tecnologias e ciência na assistência com intuito da prevenção de doenças e seus agravos. O profissional compromete-se a promover e a zelar pela vida do cidadão, estabelecendo uma relação de vínculo entre os indivíduos e seus familiares. Pela demanda e o fluxo intenso de atendimentos e procedimentos realizados, muitas vezes o hospital dispõe de excelentes recursos para resolução dos problemas de saúde  dos usuários  destes  serviços, mas pouco se ouve ou se conhece dos medos e angústias  causados  pelo enfrentamento da expectativa da resolução ou internação em muitos casos. 

O acolhimento nos hospitais não é somente voltado para a educação e treinamento dos profissionais, mas para promoção de mudanças na estrutura, nos processos de trabalho, na produção de saúde da população, tornando o momento menos traumático. Nesse contexto, os serviços de urgências e emergência recebem pacientes de alta complexidade, e com diversas situações de risco iminente de vida, e muitos são os fatores que podem influenciar na qualidade da assistência prestada aos usuários deste serviço.

 Muitos destes  pacientes  são alcoolistas e necessitam de atendimento, pois o uso e o abuso de álcool estão diretamente relacionados à problemas de agravos à saúde, socioculturais e econômicos, podendo apresentar maior risco de acidentes automobilísticos, violências, comportamento de risco ligados ao sexo sem proteção,  uso de drogas psicotrópicas, intoxicação alcoólica, síndrome da abstinência, transtornos psiquiátricos ou ainda condições clínicas, como hipertensão e doenças do aparelho gastrointestinal.

Os serviços de urgências e emergência atendem diariamente um fluxo intenso de usuários,  cabendo aos profissionais médicos e enfermeiros o acolhimento adequado, identificando a clientela, neste caso, o alcoolista, suprindo suas necessidades naquele momento e realizando encaminhamentos  adequados, quando necessário. Dada a importância  do acolhimento aos usuários alcoolistas, questiona-se: quais seriam as possíveis aplicações e contribuições  do  conceito  de acolhimento aos profissionais que atuam nos serviços de urgência e emergência  frente ao cuidado prestado  ao indivíduo alcoolista?

"Dada a importância  do acolhimento aos usuários alcoolistas, questiona-se: quais seriam as possíveis aplicações e contribuições  do  conceito  de acolhimento aos profissionais que atuam nos serviços de urgência e emergência  frente ao cuidado prestado  ao indivíduo alcoolista?"

O perfil dos usuários dos serviços de urgência e emergência

Ainda vive-se uma grande procura por parte da clientela aos serviços de urgência e emergência,  e isso deve-se, muitas vezes, à baixa qualidade e pouca oferta de vaga por agendamento nos  serviços de saúde.  A superlotação e o pouco contato pessoal não impedem a imensa procura por parte dos usuários do SUS. Além de porta aberta, os serviços de urgência e emergência  possuem um tempo de espera reduzida para a resolução dos problemas de saúde da população, seguindo a perspectiva curativa do processo saúde doença.

A oferta restrita de serviços faz com que o público excedente procure atendimento em locais que concentrem maior possibilidade de portas de entrada, sendo que os pronto-atendimentos e as emergências hospitalares correspondem ao perfil de atender às demandas de forma mais ágil e concentrada.  Apesar de superlotados, impessoais e atuando sobre a queixa principal, esses  locais reúnem um somatório  de recursos, quais sejam consultas, remédios,  procedimentos de enfermagem, exames laboratoriais e internações, enquanto as unidades de atenção básica oferecem apenas a consulta médica.

A organização do SUS tem como uma de suas diretrizes a hierarquização, ficando sob competência dos serviços de urgência e emergência a resposta imediata das necessidades em saúde, atendendo a queixa principal. O acolhimento deve estar presente em todas as formas  de atendimento prestado pelos profissionais da saúde, incluindo os serviços de urgência e emergência, pois o acolhimento implica na responsabilização  de um atendimento com escuta  qualificada, que oferte respostas adequadas  aos usuários,  encaminhando-os para uma assistência  contígua.

" De acordo com a Política Nacional de Humanização (PNH) - Humaniza SUS, o acolhimento com avaliação e classificação de risco torna-se uma das intervenções  potencialmente decisivas na reorganização  e realização da  promoção da  saúde em rede."

Em toda situação de atendimento prestado por profissionais de saúde, o acolhimento deve estar presente. Pressupõe atender a todos, ouvindo seus pedidos e assumindo uma postura capaz de dar respostas mais adequadas aos usuários, utilizando os recursos disponíveis para a resolução de problemas. De acordo com a Política Nacional de Humanização (PNH) - Humaniza SUS, o acolhimento com avaliação e classificação de risco torna-se uma das intervenções  potencialmente decisivas na reorganização  e realização da  promoção da  saúde em rede.

Conhecer as diferentes demandas presentes nos serviços de urgência e emergência faz-se necessário à oferta de prestação de serviços de qualidade para as diversas necessidades em saúde. Uma delas, mais específica, são os distúrbios psiquiátricos, marcados por uma situação de crise, desestabilidade, ruptura, perturbação, de conflitos e de desordem,  tanto  em nível individual quanto coletivo. Estes podem ser conceituados como emergência: atendimentos que não podem ser protelados,  devendo ser imediatos; e urgências, em que o atendimento pode ser prestado em tempo não superior a duas horas.

Diante desse quadro, é indispensável a intervenção imediata de uma equipe multiprofissional,  no intuito de evitar maiores prejuízos à saúde do indivíduo ou de eliminar possíveis riscos à sua vida ou à de terceiros.

Embora se tenha claro ambos os conceitos de urgência e emergência, quando se trata de distúrbios psiquiátricos esses podem não ser objetivos e, por vezes, mensurados, o que exige maior esforço dos profissionais  de saúde,  dado  que indicadores  objetivos por vezes não estão  presentes  nesses  casos. Essa iniciativa ainda é algo recente, visto que o atendimento às urgências psiquiátricas no âmbito pré-hospitalar somente foi ratificada no Brasil em 2004, garantindo uma articulação entre o SAMU e a Política Nacional de Saúde Mental.

Entre as 16 causas de maior procura pelo atendimento em  unidades de urgência  e  emergência, a  dependência alcoólica correspondeu a 16,5% dos atendimentos. Destes,  a maioria dos casos são do sexo masculino  (83,6%). Outro estudo aponta que o perfil da população atendida caracteriza-se por ser de adultos jovens, em idade produtiva, em dias úteis e em período diurno.

Como evidenciam os dados, houve um número significativo de atendimentos de emergência psiquiátrica determinado pelo uso/abuso do álcool. Tal fato chama a atenção, pois o álcool é uma droga considerada de uso natural e é comum seu consumo no ambiente domiciliar, em festividades, ou mesmo em ambientes públicos. Neste aspecto, a sociedade é permissiva ao estimular referido consumo mediante propaganda.

Além disso, vale lembrar que a demanda resultante  do uso, abuso  e dependência  do álcool são recorrentes nos serviços de urgência e emergência, sejam eles em decorrência das causas externas que estes  indivíduos se expõem ou ainda por complicações  clínicas que necessitam de assistência  de uma equipe de saúde.

Confira a segunda parte do artigo

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