Publicada em 19/04/2017 às 15h52. Atualizada em 20/04/2017 às 00h13

Febre Amarela: uma doença que ainda reserva preocupações!

Confira os tipos de transmissão, sintomas e tratamentos para essa doença infecciosa.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
Compartilhe

Ela pode ser transmitida por duas espécies de mosquito Haemagogus e o famoso Aedes aegypti. O indivíduo humano pode ser infectado nos ciclos silvestre e urbano. Será que cada tipo de contaminação pode alterar a manifestação da doença? Nesta entrevista, o iSaúde Bahia procurou esclarecer as principais dúvidas que a população possa ter sobre a doença. Confira.

"A febre amarela é uma doença infecciosa aguda, com potencial de gravidade, causada por vírus e transmitida por mosquitos." 

iSaúde Bahia  – O que é a febre amarela e como os seres humanos são infectados? Humanos passam a doença entre si?

Gustavo Fernandes e Nanci Silva – A febre amarela é uma doença infecciosa aguda, com potencial de gravidade, causada por vírus e transmitida por mosquitos. Os seres humanos que não tenham histórico de vacinação ou contraído a febre amarela são infectados a partir da picada de um mosquito que possua o vírus. A febre amarela pode ser classificada em febre amarela urbana, quando é transmitida pelo Aedes aegypti e em febre amarela silvestre, quando é pelo Haemagogus e Sabethe. O vírus é transmitido pela picada dos mosquitos transmissores infectados e não há transmissão direta de pessoa a pessoa. 

iSB – Há diferença da transmissão para humanos em áreas florestais e urbanas?

Gustavo Fernandes e Nanci Silva – A transmissão para os seres humanos em áreas florestais, geralmente, é feita pela picada do mosquito Haemagogus, sendo ele o principal vetor para a febre amarela no ciclo silvestre. Em áreas urbanas, a transmissão ocorre pela picada do mosquito Aedes aegypti, o mesmo vetor de outras arboviroses como zika, dengue e chikungunya. No ciclo silvestre, os macacos são os principais hospedeiros do vírus. Nesse ciclo, o homem participa como hospedeiro acidental ao circular em áreas florestais (macaco – mosquito – homem). Ao contrair a doença, a pessoa pode se tornar fonte de infecção para o Aedes aegypti no meio urbano, disseminando a doença (homem – mosquito – homem). É importante salientar que o vírus e as manifestações clínicas são semelhantes em ambos os ciclos, apesar de os mosquitos serem diferentes.

iSB – Quais são seus sintomas? Todos os infectados apresentam os sintomas?

Gustavo Fernandes e Nanci Silva – A maioria dos infectados com febre amarela não apresenta sintomas ou apresenta uma forma leve dos sintomas. Para as pessoas que desenvolvem os sintomas da doença, o período de incubação é de cerca de três a seis dias. Os sintomas característicos da doença inicial são febre com início súbito, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas e vômitos. Muitas pessoas melhoram após o período inicial da doença. Após um período curto de remissão dos sintomas, que dura até dois a três dias, aproximadamente 15% dos pacientes desenvolvem uma forma de maior gravidade, que é a forma tóxica da febre amarela. Os sintomas da forma tóxica são icterícia, hemorragias, insuficiência hepática e renal e febre alta.

iSB – A febre amarela pode levar à morte? Como é o tratamento para alguém que apresente os sintomas?

Gustavo Fernandes e Nanci Silva – Não existe ainda tratamento específico para a febre amarela. O tratamento é feito com base nos sintomas apresentados pelo paciente que, de uma forma geral, fica hospitalizado para suporte e observação. Repouso, líquidos, uso de medicamentos para febre e dores podem ser utilizados para aliviar a dor e a febre. Alguns medicamentos devem ser evitados por conta de aumentar o risco de sangramentos e AINES (anti-inflamatórios não esteroides), como a aspirina. Além disso, é importante que as pessoas infectadas tenham uma proteção maior contra os mosquitos, ficando o menos exposto possível durante os primeiros dias da doença, para que eles não contribuam com a disseminação da doença através do ciclo de transmissão. 

"Entre aqueles pacientes que desenvolvem a fase tóxica da doença com disfunção hepática e renal, 20 a 50% dos pacientes podem morrer. "

A febre amarela pode levar à morte. Entre aqueles pacientes que desenvolvem a fase tóxica da doença com disfunção hepática e renal, 20 a 50% dos pacientes podem morrer. Porém, a maioria dos pacientes infectados pelo vírus da febre amarela serão assintomáticos ou então apresentarão uma forma leve da doença, com uma recuperação completa. As pessoas que se recuperam da febre amarela, geralmente, desenvolvem imunidade contra o vírus, o que as protege contra uma infecção subsequente. Para as pessoas que tiveram a forma sintomática da doença e se recuperaram, fraqueza e cansaço podem durar por vários meses.

iSB – Essa doença ocorre apenas em algumas regiões do mundo? Por quê? O que a condiciona?

Gustavo Fernandes e Nanci Silva – Como foi dito anteriormente, o vírus da febre amarela é transmitido a partir de dois ciclos (silvestre e urbano), sendo que cada ciclo apresenta um mosquito-vetor diferente. No ciclo silvestre, o mosquito Haemagogus é o principal vetor, enquanto que no ciclo urbano, o mosquito Aedes aegypti é o mosquito-vetor mais comum. Com isso, a ocorrência da febre amarela está condicionada às áreas em que há presença desses mosquitos. Por conta de o habitat ideal para esses mosquitos transmissores serem áreas tropicais e subtropicais, além de áreas florestais, isso torna a América do Sul e a África Subsariana áreas endêmicas e epidêmicas intermitentes.

iSB – Qual é a relação entre os macacos apresentarem essa febre e o contágio entre humanos? 

Gustavo Fernandes e Nanci Silva – A relação existente entre os macacos apresentarem essa febre e o contágio entre os humanos é que eles são hospedeiros do vírus no ciclo silvestre. Porém, os macacos não transmitem o vírus para os seres humanos. Quem transmite são os mosquitos Haemagogus e Sabethe, no ciclo silvestre, e o mosquito Aedes aegypti, no ciclo urbano. Os macacos são aliados dos seres humanos, já que eles sinalizam as áreas que precisam de atenção imediata. 

iSB – Quais medidas de prevenção podem ser tomadas pelas pessoas e pelo Estado?

Gustavo Fernandes e Nanci Silva – As formas de prevenção que podem ser tomadas são: evitar a picada do mosquito, já que ele é o vetor de transmissão da doença, fazendo o uso de repelentes, utilizando telas em portas e janelas, roupas compridas como calças e blusas; deixar limpos os locais em que pode haver armazenamento de água; colocar areia nos vasos de plantas; cobrir e fazer a manutenção periódica de piscinas; evitar acúmulo de água em recipientes destampados, o que já se tem repetidamente dito sobre o controle da dengue, zika e chikungunya. Outra forma de prevenção é a proteção individual, através das vacinas contra a febre amarela, especialmente para as pessoas que moram ou que vão viajar para áreas de risco.

iSB – A vacina é encontrada facilmente na rede de saúde pública? Há alguma indicação quanto à idade para a vacinação?

Gustavo Fernandes e Nanci Silva – A vacina é indicada para pessoas com mais de nove meses de idade, que vivem ou vão viajar para áreas de risco na América do Sul ou na África. Para pessoas que têm de seis a nove meses, a vacina é indicada somente para emergências epidemiológicas. Para as pessoas com mais de 60 anos de idade, a vacinação deve ser feita após a avaliação médica. A vacina está disponibilizada na rede pública.

iSB – Trata-se de uma doença do passado ou ainda é motivo para preocupação?

Gustavo Fernandes e Nanci Silva – Segundo dados do Ministério da Saúde, 604 casos de febre amarela e 202 mortes decorrentes da doença, de dezembro de 2016 a 6 de abril de 2017, foram confirmados. A doença se espalhou, a partir de dezembro, para o interior de Minas Gerais e Espírito Santo, chegando, posteriormente, ao Rio de Janeiro. Atualmente, 20 estados têm casos notificados e estão em estado de alerta. Na Bahia, a morte de macacos em área urbana da capital baiana levou a Secretaria Municipal de Saúde à distribuição de 2 milhões de doses de vacina. Desde 1942, a febre amarela é considerada erradicada em áreas urbanas no Brasil, porém, casos silvestres foram confirmados desde esse ano. É uma doença do passado que reserva preocupações, porém, com uma vacina bastante eficaz. 

Compartilhe

Autor(es)

  • Nanci Silva / CRM 8301-BA

    Infectologista, Doutora em Medicina Interna e professora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

  • Gustavo Fernandes /

    Acadêmico em Medicina na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

Saiba Mais

     

    Redes Sociais