Publicada em 23/07/2018 às 11h03. Atualizada em 23/07/2018 às 11h46

Intervenções Psicoterapêuticas em Terapia Cognitivo-Comportamental

Terapêutica propõe o empoderamento e a autonomia da mulher vítima da violência doméstica.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Confira a versão do artigo científico 

Partindo-se da percepção de que a mulher vítima de violência doméstica se constitui a partir de suas relações, de uma história pessoal, de um meio social, econômico e político, o papel da psicologia é potencializar a reflexão da mulher sobre esses agentes formadores da sua subjetividade, a fim de empoderá-la. Nesse sentido, o objetivo é transformar as mulheres em agentes de sua própria realidade, para serem capazes de construir estratégias e tomar decisões que modifiquem o seu cotidiano e as suas relações sociais, além de favorecer interações saudáveis com o seu  meio,  como  também,  fazer  com  que  elas resgatem  sua  condição  de  sujeito,  sua autoestima,  suas  vontades  e  seus desejos,  que  ficaram escondidos  e  suprimidos  durante  todo  o  período em que conviveram em uma relação marcada pela violência.

Dessa forma, destaca-se a terapia cognitivo-comportamental (TCC) como forma de psicoterapia que integra teorias de cognição e aprendizagem com técnicas de tratamento derivadas da terapia cognitiva e da terapia comportamental, capaz de atender, de forma eficaz, às demandas de violências, tanto doméstica quanto psicológica. A TCC pressupõe que variáveis cognitivas, emocionais e comportamentais estão funcionalmente inter-relacionadas.   

O tratamento tem por objetivo identificar e modificar os processos de pensamentos desadaptativos e comportamentos problemáticos da cliente por meio da reestruturação cognitiva e das técnicas comportamentais para obter mudanças em direção ao empoderamento feminino.

O processo psicoterapêutico parte do princípio de que não é a situação em si que determina o que a pessoa sente, e sim a pessoa, a partir de sua própria interpretação da situação. A forma como as pessoas se sentem emocionalmente e a forma como se comportam estão associadas a como elas interpretam e pensam a respeito da situação.  A situação em si não determina diretamente como elas se sentem ou o que fazem; a sua resposta emocional é mediada pela sua percepção da situação. Assim, torna-se imprescindível promover esse esclarecimento às mulheres, a fim de que se empoderem e se desvencilhem do aprisionamento gerado pela violência psicológica.

Além disso, vale ressaltar que o objetivo da TCC é promover o autoconhecimento para o autocontrole e autonomia do paciente, por meio do empirismo colaborativo (atuação ativa tanto do psicoterapeuta quanto do paciente, visto que o paciente é coterapeuta), o   que   entra   em   total   consonância com as realidades dessas mulheres.  Compreendem as principais características da TCC:  foco no aqui e agora; resolução de problemas; sessões estruturadas; uso frequente de tarefas de casa e de técnicas, tanto da psicologia cognitiva quanto da psicologia comportamental.

"...o objetivo da TCC é promover o autoconhecimento para o autocontrole e autonomia do paciente, por meio do empirismo colaborativo (...), o   que   entra   em   total   consonância com as realidades dessas mulheres."

A Psicoeducação

A TCC é uma abordagem dotada de inúmeras técnicas interventivas. No entanto, destacam-se: a psicoeducação e a descoberta guiada. A psicoeducação é um acessório ou procedimento de uso terapêutico, com a função de simplificar a queixa da paciente.  Nesse sentido, o psicólogo, por meio de miniaulas, prescreve o exercício na sessão, e recomenda leituras (principalmente sobre a Lei Maria da Penha e outras literaturas acerca da violência contra mulheres), pois a paciente que compreende bem o seu problema, as consequências e o processo de tratamento tem maior probabilidade de tornar-se mais empoderada. A descoberta guiada é a técnica mais usada na sessão, frequentemente, para identificar pensamentos automáticos gerados a partir da violência sofrida. Por meio dessa técnica, o psicoterapeuta atua com o objetivo de ajudar a paciente a identificar conteúdos cognitivos severos e inflexíveis, colocando-os como suspeitas e não como verdades absolutas.

Considerações Finais

Após a análise sobre as pesquisas relacionadas ao assunto, constatou-se que a violência psicológica contra a mulher tem uma íntima relação com as outras formas de violências, envolvendo questões de gênero, como a violência doméstica, sexual, patrimonial etc. Assim, qualquer ação do outro que resulte em danos à saúde psicológica deve ser encarada como sendo violência psicológica,  e  que  se  fazem necessários tanto o acolhimento legal quanto o psicoterapêutico, este último, com base, principalmente, no empoderamento.

Os dados apresentados sugerem que há uma junção de fatores que culminam na manutenção do círculo vicioso que envolve a mulher e a violência psicológica  sofrida por ela:  a  cultura  da  subnotificação, ou  seja, o  entendimento  do  senso  comum  de que  as práticas de violências psicológicas não são motivos razoáveis  para  a  efetivação  de  uma  denúncia formal  do  agressor;  a  insensibilidade  por  parte dos   órgãos   estatais   de   proteção   à   mulher   no acolhimento dos casos, cuja alegação para esse fato é  a de que  a  ausência  de  danos  físicos  visíveis,  muitas vezes, torna-se a desculpa para o não registro da notificação da denúncia, o que impede a posterior tomada das medidas legais cabíveis.

É inegável o dano provocado pela violência psicológica em vários âmbitos da vida dessas mulheres. Todavia, frente à tal realidade, a psicoterapia baseada na Terapia Cognitivo-Comportamental, pautada na promoção do empoderamento, está indicada, por diversos pesquisadores, como um meio efetivo de promover a quebra do círculo vicioso, a ressignificação do sofrimento e da realidade, a reestruturação cognitiva e a elevação da autoestima.

Por ser uma temática atual, é extremamente necessário discutir a violência psicológica contra mulheres, bem como investir em mais pesquisas. Ao final desse estudo, percebeu-se, portanto, que não há investimento em pesquisas que também versem sobre os danos provocados pela violência psicológica, nem sobre a relevância do empoderamento das mulheres como forma interventiva para a quebra desse paradigma.

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