Publicada em 21/10/2016 às 00h00. Atualizada em 25/10/2016 às 11h26

“Lugar de criança também pode ser na cozinha!”

Mais do que a noção de alimentação saudável, é preciso estimular as crianças, desde cedo, a conhecerem e entenderem os alimentos e sua importância.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
Compartilhe

Muito mais do que um dia, o mês de outubro é dedicado às crianças, pois congrega o dia delas, 12 de outubro, e o Dia Nacional de Prevenção à Obesidade (11/10). Não por acaso, a data vem alertar uma alarmante realidade dos “pequenos(as)”. Segundo dados recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 40% da população brasileira é acometida pelo excesso de peso, e o índice de crianças brasileiras com sobrepeso chega a 15%. Diante disso e imersos num contexto de padrões alimentares repletos de comidas industrializadas (em sua maioria com excesso de sódio, açúcar e/ou aditivos químicos e corantes, prejudiciais em elevadas quantidades e a partir de seu consumo frequente e constante), a preocupação com a alimentação infantil é vital.

Segundo o Conselho Federal de Nutricionistas, a alimentação das crianças brasileiras de 6 a 23 meses ainda requer atenção especial, visto que, a partir de alguns estudos e pesquisas (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do Ministério da Saúde, 2015), foi verificado que 14% de um grupo dessa faixa-etária consumiram alimentos ricos em ferro no dia anterior a consultas, contra 56% consumindo alimentos ultraprocessados. Ou seja, a desconstrução, ou melhor, a falta de “edificação” sólida, inicialmente projetada na primeira infância, segue como uma má conscientização sobre a alimentação e o alimento por parte da criança. Ao crescer e se desenvolver, a criança passa a ter escolhas alimentares próprias e, sem a vivência desde cedo, muitas não conhecem nem mesmo alimentos in natura (vegetais e frutas – principalmente os regionais, por incrível que pareça!). 

"...a orientação do nutricionista, acompanhada da equipe multidisciplinar com pediatra e outros profissionais, é essencial"

A solução não é simples, na realidade, são inúmeras as possibilidades. Primeiramente, a orientação do nutricionista, acompanhada da equipe multidisciplinar com pediatra e outros profissionais, é essencial. Em seguida, desde o incentivo pelo exemplo com a família (pais e núcleo familiar) alimentando-se de forma regular em harmonia, quantidade, qualidade e adequação a cada caso, com horários fracionados para realizar as refeições (quatro a seis vezes ao dia), até outros aspectos como realizar a refeição em ambientes calmos, mastigando bem os alimentos e escolhendo fontes seguras de alimentação são de suma importância. Contudo, hoje, surge a nova tendência de “preparar seu próprio alimento” e, acompanhada disso, algumas iniciativas, projetos e empreendimentos têm-se apropriado desse conceito para traçar uma nova maneira de a criança enxergar o alimento e consumi-lo, ou melhor, desvendá-lo.

Se antes (há certo tempo) a população tinha perfil de moradores da zona rural e todo alimento que se plantasse era utilizado também para subsistência, a qualidade alimentar talvez fosse mais original. Porém, com a modificação do perfil de urbanização e as importantes transições nutricionais, da desnutrição presente e iminente de anos atrás, para a obesidade infantil, atual questão de saúde pública, refletem também a modificação alimentar do povo brasileiro (que acompanhou a maior parte da tendência mundial dos países em desenvolvimento e desenvolvidos). Assim, o natural cultivado, passou para o industrial, processado e embalado e, com isso, a sobrecarga que esses produtos carregam junto a si. 

É indiscutível a série de avanços com a indústria de alimentos à frente de boa parte do desenvolvimento da ciência e tecnologia de alimentos e alimentação humana, inclusive infantil, contudo, esse avanço trouxe a questão do “fast”, dos pacotes e embalagens, das propagandas de alimentos vinculados a desenhos animados/heróis infantis/bonecas etc., “conceitos” que têm sobrepujado o próprio significado do alimento no ato de comer.

Cultivar alimentos em hortas próprias (na cidade, quintal, jardim, horta vertical, entre outros) é um bom início e estímulo a se tornar mais participativo dentro do seu ato de comer, podendo  a criança ser envolvida nesse processo e, dessa forma, passando a produzir alimentos mais naturais (livre de grandes processamentos, exposições, e manipulações), preservando mais frescor, cor, suculência e certamente tendo seu conteúdo nutricional logo ao alcance das mãos. 

Outra “solução” seria envolver a criança em atividades simples de preparo dos alimentos, nas compras em supermercados (e por que não em feiras livres, inclusive orgânicas?). Dessa forma, ela se torna participativa no processo, passa a conhecer alimentos do hábito alimentar da família e tem a oportunidade de ver outros nunca antes expostos em casa. Assim, o interesse pela diversidade alimentar pode surgir de forma espontânea e mais natural.  Além disso, tais atividades contribuem para a vivência em família e, consequentemente, o “comer junto” fica muito mais rico.
Além de participar das compras, algumas iniciativas estimulam as crianças a prepararem seus alimentos (claro, avaliando e afastando os riscos e perigos como fogo, facas pontiagudas e procedimentos impróprios para as crianças). Desde a higienização dos alimentos, na qual elas podem sentir textura, aroma, perceber formas e cores do alimento original, até a noção de limpeza e sanitização como prevenção de doenças veiculadas por alimentos, o preparo pode ser uma grande oportunidade de aprendizado sobre a qualidade dos alimentos. 

Preparando o alimento, a criança pode despertar para as inúmeras formas de consumi-lo, melhorando sua aceitabilidade, principalmente com vegetais e frutas, tornando-a mais receptiva a pratos de aceitação mais difícil nesa faixa etária. As crianças podem demonstrar interesse pelas técnicas de cocção e de cozinha, visto que são verdadeiros atrativos pelas transformações perceptíveis que o alimento passa. A arrumação de pratos pode estimular a criança na criatividade, bem como permitir que ela enxergue sobre outra ótica o que irá comer, não só como “obrigação”, mas como fruto de um preparo, fruto de um “cuidado”. Todas essas atividades despertam autonomia e sensibilidade na criança e ampliam sua conscientização sobre alimentação e nutrição.

Cursos de “minichefs”, “super chefinhos”, ou seja lá quais forem as nomenclaturas comerciais veiculadas, são boas opções e já existem nas principais capitais do país. Com supervisão de profissionais capacitados (nutricionistas, chefs, gastrônomos, psicólogos, pedagogos, entre outros), atividades lúdicas podem ser inseridas no preparo do alimento envolvendo noções de nutrição, tornando o ato de cozinhar também um tipo de brincadeira, só que com fundamentação e segurança.

Portanto, lugar de criança pode ser sim na cozinha! Acompanhada pela família, seja na cozinha ou nos locais de realização das refeições, sua presença pode representar a perspectiva de fortalecimento do elo de todos com a alimentação saudável, em curto, médio e longo prazo.

Fotos

Compartilhe

Saiba Mais

     

    Redes Sociais