Publicada em 06/03/2018 às 18h50. Atualizada em 19/03/2018 às 08h02

O ambiente como facilitador da reabilitação de indivíduos com AVC após alta hospitalar

A abordagem interdisciplinar é fundamental para o restabelecimento sa saúde e qualidade de vida do paciente.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"O Brasil é o país da América latina com as mais altas taxas de mortalidade e a Bahia aparece como o estado do nordeste com a maior taxa de mortalidade por doença cerebrovascular."

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma das causas mais comuns de deficiência. Atualmente, existem 26 milhões de sobreviventes de AVC no mundo. O Brasil é o país da América latina com as mais altas taxas de mortalidade e a Bahia aparece como o estado do nordeste com a maior taxa de mortalidade por doença cerebrovascular.  

O AVC, quando não leva a óbito, em geral, deixa sequelas que comprometem a funcionalidade, ocasionando, com frequência, uma deficiência parcial ou total do indivíduo. Essas alterações trazem repercussões para além dos pacientes, atingindo, também, a família e a sociedade.

Após o AVC, o indivíduo pode  apresentar alterações físicas, emocionais, cognitivas, sensoriais, perceptuais e de comunicação. A sequela mais comumente encontrada é a hemiplegia que se caracteriza pelo comprometimento total de determinado lado do corpo, com o indivíduo incapaz de mover o hemicorpo ou a hemiparesia pelo comprometimento parcial, o  que faz com que o indivíduo apresente dificuldades em executar determinados movimentos. Em ambos os casos, os indivíduos podem enfrentar dificuldade para se mover de forma independente.

É necessário dessa forma, compreender que a reabilitação após o AVC  requer “uma força tarefa”, na qual a abordagem interdisciplinar é fundamental e envolve a equipe de enfermagem, fisioterapeutas, fonoaudiólogo, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, médicos, cuidadores, famíliares e paciente.  Cada um dos membros dessa equipe representa uma peça importante nesse   processo.

A literatura tem descrito a intervenção precoce como um fator que colabora para a recuperação motora, funcional e a autonomia do paciente, ademais, sugere que a reabilitação seja concebida como uma “tarefa de 24hs”, na qual os cuidados ofertados durante o internamento sejam estendidos para o domicílio, mediante as orientações a familiares e/ou cuidadores.  

Outros  estudos, sugerem, ainda, que a reabilitação é um processo de mudança ativa e que deve estar pautada em 5Ps: prevenção, previsão, plasticidade, participação e personalização. Cabe ao fisioterapeuta atuar na prevenção dos sintomas provocados por essa devastadora doença, maximizar a independência desses indivíduos e, principalmente, escolher práticas selecionadas que permitam melhor plasticidade neural  nesse cérebro danificado, tornando possível não apenas a realização de atividades de vida diária, como comer, vestir ou fazer a higiene, mas também permitir  o retorno mais rápido desses indivíduos ao convívio social.

A pesperctiva atual de saúde leva em consideração não apenas a ausência de doença mas  permite uma visão biopsicossocial do indivíduo, como proposto pela Organização Mundial de Saúde (OMS) na classificação internacional de funcionalidade (CIF) que, além de considerar o dano na estrutura corporal, leva em conta os fatores pessoais e ambientais, apontando que os mesmos podem atuar como barreiras ou facilitadoras para o reengajamento social e influenciar o bem-estar do indivíduo. Ainda de acordo com a CIF, os fatores ambientais constituem o ambiente físico, social e a forma como as pessoas vivem e realizam a sua vida, fatores esses que podem contribuir para o retorno à participação social após um AVC. 

Por entender,  nesse contexto, que o ambiente domiciliar, pode, dessa forma, atuar como uma “barreira” ou um “facilitador” no processo de reabilitação, é importante organizá-lo de maneira incentivadora e adequada, de forma a oferecer ferramentas para que o indivíduo/e ou a família consiga(m) desempenhar atividades, ainda  que  complexas, de  uma maneira mais fácil. É papel do fisioterapeuta estabelecer estratégias de reabilitação e sugerir modificações no ambiente com o intuito de diminuir as barreiras e reduzir as limitações decorrentes do AVC.

Seguem algumas orientações:

1.     É importante que o indivíduo não permaneça por muito tempo deitado. 

2.    Quando deitado na cama, o indivíduo deve estar disposto de forma que todas as atividades sejam realizadas preferencialmente pelo lado comprometido. Ex.: recepção de amigos, familiares e profissionais, transferências da cama para cadeira ou da cadeira para cama.

3.     Caso exista uma mesa auxiliar ou mesa de cabeceira, esta também deve estar posicionada  para estimular o paciente a virar a cabeça para o lado mais comprometido.

4.     O aparelho de TV deve estar sempre disposto à frente ou discretamente lateralizado para permitir que o indivíduo explore o lado comprometido.

5.    Desde o início, ainda na fase aguda, o indivíduo deve ser orientado quanto ao cuidado e a maneira correta de segurar e posicionar o membro superior comprometido (ombro e mão) evitando acidentes.

6.    Quando sentado, é importante que a cadeira tenha uma superfície firme e uma altura adequada para que os pés desse  indivíduo fiquem bem apoiados no chão.

7.     Na posição sentada, o indivíduo deve manter o braço apoiado sobre uma mesa, favorecendo a estabilidade e o alinhamento do tronco.

8.    Quando de pé, toda abordagem, seja de apoio ou supervisão, para a marcha deve ser feita, preferencialmente, pelo lado mais comprometido.

9.    O uso de equipamentos auxiliares da marcha (andadores, bengalas etc.) não devem ser encorajados na fase aguda. É importante que o indivíduo seja estimulado, preferencialmente, para o aprendizado do uso do membro comprometido.  

10.    Orientações quanto ao uso do calçado adequado (preferencialmente, tênis e calçados fechados) também são necessárias, a fim de facilitar a marcha e prevenir quedas. 

11.    Estratégias para o posicionamento do pé comprometido, como a do enfaixamento em 8 também devem ser encorajadas, pois, além de minimizarem os efeitos da inversão (o pé quando vira para dentro), permitem uma melhora informação sensorial do membro comprometido.

 

Referências:

1.    Faria- forttini, I. Basílio, M.L. Scianni, A. A. etal .Performance and capacity- based measures of locomotion, compared to impariment- based measures, best predicted participatin in individual swith hemiparesis due stroke. 2017. Disability and Rehabilitation.
2.    Singam, A.Ytteerberg,C. Tham, K. Koch,L.V.  Participation in complex  social everyday activities six year safter stroke: predictors for return to pre –stroke level.2015. Plos one
3.    Gadidi,V. Leurer- Katz, M. Carmeli, E. Bronstein, N.M. Long- term out come post stroke: predictors of activity limitation and participation restriction. 2011 Arch Phys Med Rehabil. (92)1802-1807.
4.    www. Redebrasilavc.org.br/campanha-avc-2017.
5.    Lotufo, P. A. Goulart, A. C et al. Doença cerebrovascular no Brasil de 1990 a 2015: Global BurdenofDisease 2015. Rev. bras. epidemiol. [online]. 2017, vol.20, suppl.1, pp.129-141. 
6.    http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sim/cnv/obt10uf.def:12/12/2017
7.    Araújo JB, Cacho EWA, Freitas RPA et al. Efeitos de uma capacitação oferecida a cuidadores informais de pacientes  Pós AVC.2015. Rev. Neurocienc: 23(3); 368-375.
8.    Davies, PM. Hemiplegia: tratamento para pacientes após AVC e outras lesões cerebrais. 2008. Ed.Manole.132-169.
9.    Kimberley TJ, Novak I, Boyd L, Fowler E, Larsen D. Stepping Up to Rethink the Future of Rehabilitation: IV STEP Consideration sand Inspirations. 2017. Pediatric  Physical Therapy. Vol.41.p 76-84.
10.    Harris. S. R, Winstein. C. J.  The Past, Present, and Future of Neurorehabilitation:From NUSTEP through IV STEP and Beyond. 2017. JNPT. Vol.41: 3-9.
11.    (WHO) World Health organization. International Classification of functioning, disabilityandhealth: ICF Wolrd Health Organization; 2001.
12.    Ribeiro KSQS, Neves RF, Brito GEG et al, Análise dos impactos de fatores ambientais avaliados pela CIF em indivíduos pós –avc. 2016. Fisioter. Mov :29(2):237-249
13.    www.abavc.org.br/posturas-e-transferencias-do-paciente-pos-avc
14.    www.reabavc.com.br
15.    Unidade de AVC do Hospital Geral Roberto Santos. Manual de orientações pós-alta hospitalar. Secretaria de Saúde - Governo do Estado da Bahia. 2016.

Palavras Chave:

reabilitação ACV neurologia
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