Publicada em 07/04/2016 às 00h00. Atualizada em 07/04/2016 às 08h27

O que você sabe sobre o marca-passo?

Tipos e funções, avanços tecnológicos, mitos e verdades sobre restrições quanto ao uso. Confira essas e mais outras informações nesta entrevista com o cardiologista Ricardo Sobral.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"Os marca-passos convencionais são dispositivos indicados para tratamento de distúrbios do ritmo cardíaco que levam à lentificação dos batimentos cardíacos. São os mais comumente implantados."

iSaúde Bahia – Há diferentes tipos e modelos de marca-passo para diferentes tipos de problemas cardiológicos ou mesmo para diversos tipos de pacientes? Pode comentar um pouco sobre isso?

Ricardo Sobral – Genericamente, os dispositivos cardíacos implantáveis são chamados  marca-passos, contudo, existem diferentes tipos de dispositivos para diferentes condições médicas. Esses dispositivos, assim como os marca-passos, são instalados no tórax do paciente para tratamento de doenças cardíacas.  

Além dos marca-passos convencionais, temos os multissitios (ou ressincronizadores) e os cardiodesfibriladores implantáveis (CDI).

Os marca-passos convencionais são dispositivos indicados para tratamento de distúrbios do ritmo cardíaco que levam à lentificação dos batimentos cardíacos. São os mais comumente implantados.

Os marca-passos multissitio ou ressincronizadores servem como terapia adicional para o tratamento da insuficiência cardíaca por enfraquecimento do coração. Além de controlarem a frequência cardíaca, servem para melhorar a contração do coração nos pacientes com sintomas de cansaço, mesmo utilizando a medicação adequada. 

Os cardiodesfibriladores implantáveis são utilizados nos pacientes que já apresentaram arritmias graves ou têm alto risco de apresentá-las. Os dispositivos detectam as arritmias e liberam choques para revertê-las, evitando a morte súbita.

iSB – Pode comentar um pouco sobre os avanços tecnológicos pelos quais esse equipamento passou, desde o início de seu uso até os dias atuais? 

Ricardo Sobral – Os primeiros marca-passos só conseguiam estimular o coração numa única frequência, o que fazia com que alguns pacientes apresentassem limitação durante o esforço físico, pois a nossa frequência cardíaca precisa variar a todo o momento, conforme a necessidade do nosso corpo. 

Os dispositivos atuais permitem diversos ajustes de programação, de acordo com a necessidade do paciente, entre eles, a frequência cardíaca, o que os tornam mais parecidos com o gerador normal do coração.

Além do controle da frequência cardíaca, os dispositivos cardíacos implantáveis atuais podem estimular múltiplos pontos no coração ao mesmo tempo, o que não ocorria com os dispositivos anteriores. Isso melhora os sintomas de cansaço em alguns pacientes e pode tratar arritmias graves que levam a risco de morte. 

Outro avanço importante é a possibilidade de realização de ressonância magnética por pacientes portadores de marca-passo. Alguns deles são preparados para a ressonância magnética, embora ainda sejam a minoria dos dispositivos. Todo o paciente que tiver um marca-passo deverá perguntar ao médico especialista se o seu é compatível com o procedimento de ressonância magnética, quando necessário.

Um grande avanço dos dispositivos também está na possibilidade de monitoramento a distância. Hoje, alguns aparelhos são dotados de mecanismos que registram e informam ao médico, de imediato, a ocorrência de irregularidades no seu funcionamento ou a ocorrência de arritmias graves, possibilitando, assim, o tratamento precoce.

iSB – Com quais limitações uma pessoa que usa marca-passo tem  para conviver com alguém sem problemas cardíacos?

Ricardo Sobral – As limitações relacionadas diretamente ao dispositivo são poucas. Normalmente, as limitações do paciente com marca-passo estão mais associadas com a própria doença cardíaca que originou a necessidade de sua implantação. 

Existe grande preocupação dos pacientes em relação a limitações para atividades físicas. O paciente com marca-passo pode realizar normalmente atividades físicas de baixo e médio impacto, ou seja, leves a moderadas, devendo evitar atividades intensas e que possam gerar impacto direto sobre o dispositivo.

Após a sua implantação, a rotina de atividade física pode ser retomada dentro de, aproximadamente, 30 dias.

Os portadores de marca-passo ficam limitados à realização do exame de ressonância magnética, caso o dispositivo não seja compatível com esse exame, o que deve ser verificado pelo paciente com o médico especialista que o assiste.

Detectores de metais também devem ser evitados (portas de banco e aeroportos), pois podem interferir no seu funcionamento. 

Ressalvadas essas limitações, o paciente poderá retomar sua rotina de vida habitual, sem restrições, sempre orientado pelo médico que o assiste.

"Alguns aparelhos que geram campos eletromagnéticos podem interferir no funcionamento do marca-passo, a exemplo do telefone celular, micro-ondas, detectores de metais etc. Assim, esses pacientes devem adotar alguns cuidados."

iSB – Ainda são muito difundidas, entre os leigos, crenças sobre a pessoa que tem um marca-passo implantado, tais como, não poder falar pelo celular, usar aparelho de micro-ondas ou mesmo não poder ter relações sexuais?  Há alguma veracidade nessas ou em alguma dessas crenças?

Ricardo Sobral – Sim, em parte. Alguns aparelhos que geram campos eletromagnéticos podem interferir no funcionamento do marca-passo, a exemplo do telefone celular, micro-ondas, detectores de metais etc. Assim, esses pacientes devem adotar alguns cuidados.

O telefone celular deve ser utilizado no ouvido contrário ao lado em que o dispositivo está implantado, devendo-se evitar guardar o aparelho no bolso da camisa próximo ao marca-passo. Recomenda-se, ainda, evitar a passagem por detectores de metais ou sensores antifurto e, ao utilizar o micro-ondas, o paciente pode ligá-lo, mas deve se manter afastado durante o seu funcionamento.

Outro cuidado importante a ser observado pelo portador é em relação a possíveis choques elétricos, sendo prudente evitar contato direto com aparelhos que possam produzir descargas elétricas, já que elas interferem no funcionamento do dispositivo. Interruptores podem ser acionados normalmente.

Decorrido o período de resguardo determinado pelo médico, após o implante do dispositivo, não há qualquer restrição à realização de atividade sexual pelo portador de marca-passo.

iSB – Como é realizada a cirurgia para implantação? 

Ricardo Sobral – O implante é realizado em centro cirúrgico, normalmente com sedação leve e anestesia local. Pode durar de uma a duas horas, dependendo da complexidade do dispositivo.

O aparelho é implantado na região anterior do tórax, através de um corte de três a cinco centímetros, do lado esquerdo ou direito (dependendo da escolha do médico e do paciente e das condições específicas do caso).

O dispositivo é ligado ao coração através de um a três fios (eletrodos) e o paciente geralmente recebe alta no dia seguinte.

iSB – Por quanto tempo uma pessoa pode permanecer utilizando um marca-passo, até que tenha que substituí-lo por outro?

Ricardo Sobral – O tempo médio de sua vida útil é de cinco a dez anos. Esse tempo varia de acordo com a condição apresentada pelo paciente. Há doenças cardíacas que demandam uma maior utilização em relação a outras.

O paciente deve realizar uma revisão, no intervalo mínimo de seis meses, a fim de avaliar as suas condições e realizar os ajustes necessários para a manutenção do ritmo cardíaco regular.

Essa revisão periódica não só ajusta o funcionamento do aparelho às necessidades do paciente, como também detecta precocemente a necessidade de sua substituição. 

iSB – Há algum tipo de cuidado a ser seguido por uma pessoa que possui um marca-passo implantado em si?

Ricardo Sobral – O seu portador pode manter a sua rotina de vida normal, mas deve se ater a alguns cuidados, já citados acima. Destacam-se as restrições com relação à realização da ressonância magnética, devendo verificar com o médico especialista se o seu dispositivo é compatível com o exame, além da necessidade de evitar choques elétricos, assim como passagem por detectores de metais. 

É importante ressaltar a necessidade de revisão periódica, em intervalo aproximado de seis meses, para garantir um funcionamento adequado e detectar precocemente a sua necessidade de substituição.

iSB – De acordo com o avanço que as ciências da saúde vêm apresentando, em várias especialidades, há indícios de que, em breve, o marca-passo não será mais uma medida necessária para quem tem problema cardíaco?

Ricardo Sobral – O avanço da ciência em diversas áreas tem gerado a prevenção de muitas doenças cardíacas, mas há um grande número delas que ocorrem em razão da idade avançada, havendo, na verdade, indícios de que, com o aumento da longevidade da população, a quantidade de indicações de dispositivos cardíacos implantáveis aumentará.

Por outro lado, há um expressivo avanço na sua tecnologia, que produzem um resultado cada vez melhor, com menos riscos para o paciente. A perspectiva de futuro é de que os dispositivos sejam menores que os atuais, implantados sem a necessidade de cirurgia e através de procedimentos mais simples, sem a necessidade dos eletrodos e com a longevidade muito maior da bateria evitando a necessidade de substituição.

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