Publicada em 02/03/2018 às 11h00. Atualizada em 06/03/2018 às 18h32

O suicídio na visão junguiana

Considerado problema de saúde pública pela OMS, o suicídio ainda é tabu até em ambientes de tratamento. Confira esse artigo especial das psicólogas Táina Santos de Sena e Aicil Franco.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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No artigo “O desejo de partir: um estudo a respeito da tentativa de suicídio”, um grupo de pesquisadores afirma que “discussões sobre a aceitação do ato do suicídio são recorrentes em diferentes períodos e sociedades e estão diretamente interligados à cultura e à visão moral, o que dificulta um consenso geral”. Sendo assim, o suicídio ganhou novas concepções ao longo dos anos. Para a maioria das religiões, é um pecado; para a Organização Mundial da Saúde, um problema público; para os psicólogos, um desafio a ser compreendido.

 A Organização Mundial da Saúde (2012) considera o suicídio um problema de saúde pública, com os dados apresentando uma média de um milhão de mortes por suicídio a cada ano e estimando uma taxa mundial de mortes por suicídio de um a cada quarenta segundos.  

A cada dia no Brasil 24 pessoas se suicidam. Esse país é um dos dez que registram os maiores números de suicídio.  Um índice alto para um tema que ainda permanece como tabu para a sociedade.  Assim, torna-se tópico invisível para os futuros profissionais até que estes se deparem com ele em sua prática, o que já consta como um problema enfrentado por profissionais que recebem pacientes com fantasias suicidas – a falta de preparo. Dessa forma, o suicídio é um dos temas mais complexos trabalhados na Psicologia, talvez o mais desafiador para um psicoterapeuta.

Para o psicólogo junguiano, foco teórico deste assunto, pode ficar evidente que uma morte deva acontecer, mas não necessariamente a morte física. O suicídio não deve ser apenas visto como uma saída da vida, mas como uma entrada na alma, ou seja, um verdadeiro mergulho em si mesmo. Muitas vezes, o contato com a morte, se bem desenvolvido, pode causar um amadurecimento psíquico para o indivíduo, por levá-lo a reflexões as quais não está acostumado. Então pode ser uma etapa de grande significância para o seu processo de individuação (segundo Carl Gustav Jung, processo pelo qual o ser humano chega ao autoconhecimento). E não deve ser tomado apenas de forma literal, mas simbólica, considerando-se que o suicídio, como qualquer outro ato desta magnitude – e que interfere de forma definitiva na vida humana –, terá sempre um simbolismo único para cada indivíduo. 

"Para o psicólogo junguiano, foco teórico deste assunto, pode ficar evidente que uma morte deva acontecer, mas não necessariamente a morte física." 

A psicologia junguiana trabalha com conceitos opostos e, assim, o termo “morte” traz à mente outros termos, como “renascimento” e “transformação”. Caberia, portanto, o questionamento: Qual seria a real demanda desse paciente: a morte propriamente dita ou uma transformação, um renascimento, uma mudança? Deverá o psicólogo junguiano descobrir ou ajudar o paciente a descobrir o que a sua “alma” (essência, subjetividade, profundidade) anseia ao desejar a morte e, então, caminhar com ele nesse processo, mostrando alternativas para esse renascimento, sem precisar que a morte física seja alcançada.

Suicídio: uma questão de saúde pública

A Organização Mundial da Saúde (2012) considera o suicídio como problema de saúde pública, visto que se tem, aproximadamente, um milhão de mortes por suicídio a cada ano. Quando o estudo é voltado para as tentativas do suicídio, fica mais complicado notar o seu real número, uma vez que os índices de suicídio não incluem os números de tentativas.  Os dados da Organização Mundial da Saúde apontam que, em 2020, poderá haver 1,53 milhão de suicídios. Para melhor visibilidade desse problema, foi criado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, no dia 10 de setembro (World Health Organization, 2012).

Profissionais da área de saúde e o suicídio

É observável através das leituras sobre este tema e debates em congresso que o suicídio não é só um tabu para a sociedade. Os profissionais da área de saúde também negam esse assunto que, geralmente, não é estudado na formação profissional. 

Ao lidar com a morte, o profissional tende a reportar-se à sua própria morte e às angústias ligadas a esse tema. Essa reflexão afeta o profissional que precisa estar preparado afim de conduzir o atendimento de forma ética e humana. Muitas vezes, são as suas próprias angústias que evitam que o tema “suicídio” seja abordado por si e por seus colegas.

Quando se trata do suicídio, logo aparecem questões prós e contras, e todas elas carregadas de algum preconceito. Autores alertam os analistas a evitarem esses julgamentos. Julgamentos que devem ser evitados não só por analistas como também por todos os profissionais de saúde, para melhor relação com o paciente e entendimento da situação ali apresentada.

Como o psicólogo junguiano lida com o tema suicídio? 

Carl Gustav Jung nasceu em 26 de Julho de 1875, na Suíça. Estudioso da mente tornou-se um pesquisador da Medicina. Inicialmente, foi seguidor de Freud, mas, por discordância de ideias, acabou por afastar-se e não se desligou de seus ideais e dos seus principais objetivos. Pesquisou e elaborou teorias sobre temas desprezados pelo meio científico e, por consequência, sofreu acusações e difamações.

"Através de toda a teoria de Jung, percebe-se que ele não teve como finalidade a “cura”, e sim o desempenho e busca das possibilidades criativas de cada indivíduo."

A respeito do suicídio, Jung não criou nenhuma teoria ou regras rígidas para essa análise, mas deu suportes para que este tema fosse trabalhado. Através de toda a teoria de Jung, percebe-se que ele não teve como finalidade a “cura”, e sim o desempenho e busca das possibilidades criativas de cada indivíduo. Conduz à prática da psicoterapia para fora da psicopatologia e busca, assim, um olhar particular para cada caso, conferindo, a partir disso, sentidos e propósitos aos sintomas psíquicos apresentados. Pode-se perceber aí a atualidade de suas considerações, em um momento que a Psicologia tanto questiona os modelos mundiais de classificação de saúde e de doença.

Segundo autores, o suicídio não deve ser visto apenas como uma saída da vida, e sim como uma entrada na alma e uma entrada na morte. A alma é vista como o centro da vida psíquica, no qual todo fenômeno psicológico deve ser referido a ela; a alma busca, então, nas tentativas de suicídio, dar um novo significado à vida. Nessa perspectiva, o psicólogo deve observar a simbologia que envolve o suicídio, uma vez que para cada pessoa há um simbolismo diferente, pois cada um organiza sua problemática e sua situação pessoal de maneira singular. Não cabe ao profissional ser pró ou contra o suicídio, o profissional precisa entender o que o suicídio significa na psique do seu paciente, e estar pronto para suportar a presença da morte, como um símbolo, em seu atendimento.

Não há como esquivar-se da morte em seu atendimento, e isso pode causar no psicólogo certa angústia. Quando o psicólogo se identifica com o ideal salvacionista, ele nega a genuinidade da perspectiva suicida, ao se permitir adentrar em sentimentos de impotência, identificando-se com o anseio dos familiares do paciente. Todo esse processo induz o profissional a buscar uma saída para o problema que não o obrigue a lidar direta ou indiretamente com a morte. 

Dessa forma, é importante que o psicólogo trabalhe o morrer e suas implicações, a morte e o seu significado. Eles não devem temer a morte, e sim tomá-la como necessária aliada na profunda reflexão que seu paciente anseia sobre si mesmo e a situação que está vivendo. O arquétipo da morte está presente desde o nascimento e permeia toda a trajetória do ciclo de vida, transformando-a de modo simbólico e subjetivo, além de construir mais vida com o espaço para o novo. 

 O suicida busca, então, uma saída para uma situação de conflito que lhe causa dor e vê somente na morte o único instrumento para alcançar essa libertação. O psicólogo o ajudará a visualizar outras saídas, que não sejam a morte biológica. Sem estar preso somente à morte física, o profissional e seu paciente podem perceber e aceitar que sim, uma morte talvez precise acontecer. Mas uma morte simbólica, uma morte de partes ou de aspectos conflituosos de sua vida. Uma morte, talvez representada como uma possibilidade de renascimento.

Ao encarar a morte, no processo de psicoterapia, o psicólogo estará encarando também sua vida, seus paradigmas, sua rotina, seus valores, sonhos e ideais. Quando passa a entender o que essa morte, de fato, representa, o que sua alma tanto anseia, a transformação poderá ocorrer, permitindo que o self consiga atuar.  Assim, amplia-se a consciência dos conflitos, desejos e reais sentimentos, de forma que haja um incremento na relação ego-self. O fluir do processo de individuação possibilita o encontro e a realização do sentido de uma vida.

Leia a 2ª parte do artigo: Suicídio: o psicólogo pode alertar à família?

Leia o artigo científico na íntegra.

 

Referências:

BOTEGA, N. (2007). Suicídio: saindo da sombra em direção a um plano nacional de prevenção. Revista Brasileira de Psiquiatria, 29(1), 7-8. doi:  10.1590/S1516-44462007000100004

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Conselho Federal de Psicologia (CFP). (2014). Código de Ética Profissional do Psicólogo (pp. 12-13). Brasília: CFP.

DURKHEIM, E. (2011). O suicídio. São Paulo, Martin Claret. Franco, M., et al. (2011). Vida e Morte: Laços da existência. Casapsi Livraria e Editora Ltda.

HILLMAN, J. (2014). Suicídio e Alma. Rio de Janeiro: Ed Vozes. 

HYDE, M.; MCGUINNESS, M. (2012). Jung: um guia ilustrado. São Paulo: Ed. Leya.

JUNG,C.G. (2002). Cartas de C. G. Jung. Petrópolis: Editora Vozes

Ministério da Saúde. (2006). Diretrizes brasileiras para um plano nacional de prevenção do suicídio. Portaria nº1.876 de 14 de agosto de 2006.

OLIVEIRA, A. et al. (2013). O desejo de partir: um estudo a respeito da tentativa de suicídio. Psicologia em Revista. 19(3), 407-421.  doi:  10.5752/P.1678-9563.2013v19n3p407

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World Health Organization. (2012, Agosto). Mental heath: suicide prevention (Supre) [Internet]. Recuperado de www.who.int/mental_health/prevention/suicide/suicideprevent/es/

ZANA, A.; KÓVACS; M. (2013). O psicólogo e o atendimento a paciente com ideação ou tentativa de suicídio. Estudos e pesquisas em Psicologia. 13(3), 897-921. 

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