Publicada em 01/08/2017 às 17h08. Atualizada em 02/08/2017 às 09h56

Por que gestantes portadoras do vírus HIV têm baixa adesão ao pré-natal?

A cobertura e qualidade do pré-natal podem contribuir para a minimização da mortalidade materna e frequência da transmissão do vírus da mãe para o bebê.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
Compartilhe

Atualmente, a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) é considerada uma pandemia e um problema no contexto da saúde pública, sendo de difícil controle para o Brasil e outros países.

O número de mulheres infectadas pelo HIV vem crescendo e a humanidade encontra um cenário de feminização do HIV/AIDS. No mundo, cerca de 17,3 milhões de mulheres são HIV positivas, com idade a partir de 15 anos.

No ano 2012, o Ministério da Saúde divulgou o boletim epidemiológico de AIDS/DST, revelando que os casos de gestantes infectadas pelo HIV na faixa etária de 10 a 14 anos foi 0,5%, 15 a 19 anos 11,2%, 20 a 24 anos 24,5%, 25 a 29 anos 26,4%, 30 a 34 anos 22,0%, 35 a 39 anos 11,7% e 40 ou mais 3,0%.

Com isso, o Sistema Único de Saúde não deixa desassistidos os pacientes HIV positivos, podendo eles procurar centros de saúde para o tratamento adequado que é distribuído de forma gratuita, com medicamentos precisos para aumentar a sobrevida e, assim, melhorar sua qualidade de vida do portador.

Segundo dados de pesquisadores, a cobertura e qualidade do pré-natal são fatores significativos para que medidas a serem tomadas contribuam consideravelmente para minimização da mortalidade materna e frequência da transmissão vertical (mão bebê) do HIV.

No Brasil, a terapia antirretroviral é ofertada de forma universal. Porém, há ainda um número elevado de gestantes infectadas pelo vírus da AIDS que não são submetidas às ações profiláticas indicadas pelo Programa Nacional –DST/AIDS6.

Pesquisas afirmam que as mulheres que descobrirem estar com a doença antes da gestação têm maior chance de realizar a profilaxia recomendada para prevenir a transmissão vertical do HIV.

Dessa forma, é utilizada como estratégia a oferta do teste de HIV antes da gestação ou no processo de planejamento da gravidez.

Assim, a prioridade do casal nas discussões que abordam o sexo mais seguro é essencial, mesmo com ambos infectados, pois possibilitará a redução de sua carga viral, além de evitar uma concepção não planejada.  E considerando que, em grande maioria, as gestantes infectadas pelo vírus HIV apresentam-se em fase reprodutiva, é necessária a realização de campanhas educativas com ênfase na mulher, com o objetivo de minimizar o número de gestantes infectadas.

Essa pesquisa justifica-se porque a assistência no pré-natal reflete-se de maneira significativa na prevenção da transmissão vertical do HIV.  Desse modo, após essa contextualização, formulou-se a seguinte questão norteadora: Quais as dificuldades das mulheres HIV positivas em aderir o pré-natal?

Entendendo o contexto

Os fatores relacionados à dificuldade na adesão ao pré-natal são múltiplos e estão associados a diversas causas, entre elas, a resistência em aceitar a gestação.  Um estudo realizado com mulheres HIV positivas evidenciou que grande maioria não planejou a gravidez, mas uma parcela demonstrou felicidade em gestar e realizou o pré-natal.  A outra parcela das mulheres enfrentou um período de negação, permitindo-lhes reconhecer e aceitar sua soropositividade e aderir ao pré-natal tardiamente.

A gravidez indesejada, muitas vezes, é bem aceita por algumas mulheres, entretanto, para outras, esse acontecimento leva à tristeza profunda, negação e desejo de interromper a gestação.  Para mulheres HIV positivas, esse ocorrido pode lhes trazer grandes angústias, justamente pela preocupação e medo de gerar um bebê HIV positivo. Daí percebe-se a importância de manter a população informada quanto à prevenção da transmissão vertical do HIV. Outro fator diz respeito à descoberta tardia da gestação para realização  do pré-natal.  Com isso, observa-se que esse fator dificulta a descoberta da soropositividade e adesão às condutas preconizadas em tempo não hábil. A descoberta da soropositividade precocemente durante o pré-natal é fator significativo para iniciar o tratamento com antirretroviral (ARV) em tempo oportuno.

"Assim, as mulheres que não fazem a profilaxia durante a gestação apresentam risco de transmissão materno-infantil do HIV."

Outra pesquisa evidenciou baixa cobertura de gestantes, concluindo que a adesão dessas mulheres ao pré-natal nas unidades básicas de saúde é reduzida.  A adesão das mães ao pré-natal e a realização das intervenções recomendadas reduz a transmissão vertical do HIV. Um estudo com mulheres HIV positivas demonstrou que o risco se encontra menor nas mulheres que realizam o pré-natal, afirmando a associação entre adesão ao pré-natal e recomendações que visam a prevenção. Assim, as mulheres que não fazem a profilaxia durante a gestação apresentam risco de transmissão materno-infantil do HIV.

Papel das equipes de saúde

Um papel fundamental da equipe de saúde, principalmente dos agentes comunitários de saúde (ACS) é a captação precoce das gestantes em visitas domiciliares. Desse modo, será estabelecido um vínculo da unidade com a gestante e as ações voltadas ao pré-natal serão iniciadas em tempo oportuno, possibilitando-lhes uma assistência completa. E, em caso de gestantes HIV positivas, as ações preventivas terão início precocemente diminuindo a possibilidade de transmissão vertical do HIV.

Sabendo-se que existem recomendações pelo Ministério da Saúde referentes ao pré-natal, estudos ainda revelam que as mulheres não comparecem em todas as consultas. 

As mulheres enfrentam dificuldade quanto a recursos financeiros para se deslocarem até o serviço de alto risco, tempo prolongado para receber os resultados laboratoriais, ausência de pessoas que possam cuidar dos demais filhos enquanto estiverem nas consultas e nos exames, desinteresse por parte das gestantes.

Frente a isso, os profissionais de saúde que assistem ao pré-natal precisam se responsabilizar pela prática de sensibilização da adesão ao pré-natal, levando a gestante a compreender que ela é a protagonista nesse cenário. Para além disso, os profissionais precisam estabelecer uma confiança e manter um vínculo forte, priorizando a parceira com essas gestantes, principalmente quando se trata de mulheres soropositivas.

Durante a prática, os profissionais deparam-se com diversos desafios que precisam ser enfrentados e resolvidos, na tentativa de manter a assistência com qualidade. Nesse cenário, eles devem conhecer, entender e adaptar-se ao contexto social em que cada gestante está inserida, a fim de criarem estratégias para que o vínculo não seja quebrado e o pré-natal seja assistido de maneira integral.

A falta de conhecimento sobre a doença e suas consequências na saúde do indivíduo acarreta problemas maiores.  Um estudo evidenciou que cerca de 21% das gestantes conheceram seu estado sorológico para HIV no momento do parto ou no pós-parto. Com isso, é possível perceber um pré-natal fragilizado, que requer realização de rotinas preconizadas pelo Ministério da Saúde.

Desse modo, compreende-se a real necessidade de manter a população informada sobre HIV/AIDS, a fim de melhorar a adesão das mulheres ao pré-natal e, consequentemente ao tratamento, visando à diminuição da transmissão vertical do HIV, uma vez que a falta de conhecimento e entendimento da dimensão dos riscos é um fator que eleva a vulnerabilidade.

Leia o artigo científico na ÍNTEGRA.

 

Referências:

1. Roso A. Mulheres latinas e transmissão vertical do HIV: Visão dos profissionais da saúde que atendem mulheres soropositivas nos Estados Unidos. Rev Interamericana de Psicologia. 2010;44(2):332-341.

2. Brasil. Ministério da Saúde. Plano operacional para a redução da transmissão vertical do HIV e da sífilis. Brasília. DF. 2007.

3. Brasil. Ministério da Saúde. Boletim epidemiológico AIDS-DST. Brasília.  DF. 2012.

4. Cartaxo CMB, Nascimento CAD, Diniz CMM, Brasil DRPAB, Silva IF. Gestantes portadoras de HIV/AIDS: Aspectos psicológicos sobre a prevenção da transmissão vertical. Estud Psicol. 2013;18(3):419-427.

5. Cavalcante MS, Ramos Junior NA, Silva TMJ, Pontes LRSK. Transmissão vertical do HIV em Fortaleza: Revelando a situação epidemiológica em uma capital do Nordeste. Rev Bra Ginecol e Obst. 2004;26(2):131-138. doi:  10.1590/ S0100-72032004000200008. 

6. Souza Júnior PB, Szwarcwald CL, Barbosa Júnior A, Carvalho MF, Castilho AC. Infecção pelo HIV durante a gestação: estudo-sentinela parturiente, Brasil, 2002. Revista de Saúde Pública. 2004;38(6):764-772. doi:  10.1590/ S0034-89102004000600003.

7. Moura EL, Praça NS. Transmissão vertical do HIV: expectativas e ações da gestante soropositiva. Revista Lat Am de Enferm. 2006;14(3):405-413.

8. Darmont MQR, Martins HS, CAlvet GA, Deslandes SF, Menezes JA. Adesão ao pré-natal de mulheres HIV+ que não fizeram profilaxia da transmissão vertical: um estudo sócio-comportamental e de acesso ao sistema de saúde. Cad Saúde pública. 2010;26(9):1788-1796. doi:  10.1590/ S0102-311X2010000900012.

9. Cechim  PL, Perdomin IFRI, Quaresma LM. Gestantes HIV positivas e sua não-adesão à profilaxia pré-natal. Rev Bras Enferm. 2007;60(5):519-523. doi:  10.1590/S0034-71672007000500007.

10. Lana FCF, Lima AS. Avaliação da prevenção da transmissão vertical do HIV em Belo Horizonte, MG, Brasil. Rev Bras Enferm. 2010;63(4):587-594. doi:  10.1590/ S0034-71672010000400014.

11. Silva RMO, Araújo CLF, Paz FMT. A realização do teste anti-hiv no pré- natal: Os significados para a gestante. Esc. Anna Nery. 2008;12(4):630-636. doi:  10.1590/S1414-81452008000400004.

12. Nishimoto  TMI, Eluf Neto J, Rozman MA. Transmissão materno-infantil da imunodeficiência humana: avaliação de medidas de controle no município de Santos. Rev. Assoc. Med. Bras. 2005;51(1):54-60.  doi:  10.1590/S0104-42302005000100021.

13. Fernandes RCSC, Ribas GF, Silva DP, Gomes AM, Medina- Acosta  E. Desafios  operacionais persistentes determinam a não redução da transmissão materno-infantil do HIV. J Pediatr. 2010;86(6):503-508. doi:  10.1590/S0021-75572010000600010.

14. Vasconcelos ALR, Hamann EM. Por que o Brasil ainda registra elevados coeficientes de transmissão vertical do HIV? Uma avaliação da qualidade da assistência prestada a gestantes/parturientes infectadas pelo HIV e seus recém-nascidos.  Rev. Bras. Saúde Matern. Infant. 2005;5(4):483-492. doi:  10.1590/S1519-38292005000400012.

15. Feitosa JA, Cariolano MWL, Alencar  EM, Lima LS. Aconselhamento do pré-teste anti-HIV no pré-natal: percepções da gestante. Rev. Enferm.  UERJ. 2010;18(4):559-564.

Compartilhe

Autor(es)

  • Denise Santana Silva dos Santos /

    Mestre em Enfermagem. Tutora do Núcleo de Neonatologia do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da UNEB. Enfermeira Assistencial do Centro de Reabilitação Física de Camaçari (CEMPRE). Salvador, Bahia, Brasil.

  • Sara Moreira dos Santos /

    Enfermeira graduada pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Salvador, Bahia, Brasil.

  • Tania Christiane Ferreira Bispo /

    Enfermeira. Pós-Doutora em Saúde Coletiva. Professora na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e no Centro Universitário Jorge Amado (UNIJORGE). Salvador, Bahia, Brasil.

  • Fabiane Nascimento Nunes /

    Enfermeira graduada pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Salvador, Bahia, Brasil.

  • Lucas Gama Passos Silva /

    Graduando de Enfermagem na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Salvador, Bahia, Brasil.

  • Silas Ricarti Moniz Pacheco Lima /

    Graduando de Enfermagem na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Salvador, Bahia, Brasil.

Saiba Mais

     

    Redes Sociais