Publicada em 09/10/2011 às 23h44. Atualizada em 07/02/2012 às 14h48

Quando os hábitos tornam-se rituais obsessivos

Conheça o TOC, transtorno psicológico que atinge cerca de 2% da população brasileira.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"O TOC é caracterizado como um distúrbio psiquiátrico de ansiedade. Neste caso, a obsessão diz respeito a pensamentos recorrentes que invadem a mente..."

Todos nós temos alguns hábitos rotineiros, como colocar os livros na estante em ordem alfabética, usar aquela camisa de nosso time favorito em dias de decisão, organizar as roupas por cores no armário e até mesmo fazer o sinal da cruz depois de um susto.  Ações como essas são mais comuns do que se imagina, porém rituais bastante intensos, que interferem diretamente no cotidiano como lavar as mãos seguidamente, conferir diversas vezes antes de dormir se portas e janelas estão fechadas ou checar se o gás está desligado a todo momento, por exemplo, podem esconder as obsessões de quem as pratica. 


Melhor Impossível (As Good As It Gets) - 1997



Por diversos motivos, alguns deles ainda não totalmente esclarecidos pela ciência, certos rituais podem se transformar em distúrbios. Isso ocorre quando determinados comportamentos são repetidos à exaustão e comprometem o dia a dia, afetam os relacionamentos sociais e prejudicam o desempenho no trabalho. Em situações como essas, está claro que a pessoa não tem apenas manias extravagantes. Trata-se de um caso de Transtorno Obsessivo Compulsivo, mais conhecido pela sigla TOC, mal que atinge cerca de 2% da população brasileira.

O TOC é caracterizado como um distúrbio psiquiátrico de ansiedade. Neste caso, a obsessão diz respeito a pensamentos recorrentes que invadem a mente do paciente sem que ele queira. Por exemplo, pode surgir a ideia de que uma estante precisa estar com os objetos alinhados para ficar arrumada ou que nossas camisetas devem ser separadas por cores para o guarda-roupa continuar organizado. Quando algo é posto fora de ordem, surge uma angústia tão grande que para ser aliviada, as pessoas adotam comportamentos repetitivos, como arrumar os objetos toda vez que são postos fora do lugar. 

Motivado por uma sensação de alívio imediato, o indivíduo fica refém do pensamento e não consegue conter o impulso de agir de forma repetitiva. Geralmente, a pessoa concretiza a ação para se livrar da obsessão, mas isso só traz conforto temporário. Funciona quase como um ciclo vicioso. Quando as atividades não são realizadas, a mente do paciente fica congestionada e o sofrimento só tende a aumentar. 

"À medida que o tempo passa, as obsessões ficam mais fortes e podem causar danos maiores na vida de quem sofre com o mal."

 
À medida que o tempo passa, as obsessões ficam mais fortes e podem causar danos maiores na vida de quem sofre com o mal. Tem gente que só consegue sair de casa, por exemplo, após cumprir toda uma série de atividades.  Sem a conclusão delas, não há possibilidade alguma de colocar o pé na porta da rua. É como se algum tipo de mal lhe pudesse ser feito caso não cumprisse todas as etapas do ritual.

No filme Melhor é Impossível, o ator Jack Nicholson mostra como é o dia a dia de alguém que sofre com o TOC, explorando outro aspecto do transtorno: a ideia exagerada e irracional sobre saúde e higiene. O personagem usa luvas quase o tempo todo e só come com talheres descartáveis com medo de se contaminar por bactérias, vírus e germes provenientes de outras pessoas. Na vida real, alguns pacientes tomam banho e lavam as mãos várias vezes ao dia. A diferença entre hábitos saudáveis e a patologia é muito mais quantitativa do que qualitativa. Não existem limites para os tipos de obsessão do paciente, mas algumas são mais comuns, como colecionar coisas, preocupar-se com contaminação, agressão, simetria, pensamentos religiosos e sexuais. 

Acompanhamento médico é fundamental

A maioria das pacientes que apresenta sintomas do TOC é diagnosticada por volta dos 25 anos. Isso não significa que o problema só surge em tal faixa etária; muitas vezes os primeiros sinais de obsessão e compulsão aparecem muito antes (até mesmo na infância), mas as pessoas demoram a procurar ajuda médica por desconhecimento. Não bastasse a angústia provocada pelo problema em si, o TOC faz com que alguns pacientes escondam os sintomas por vergonha e custam a procurar ajuda. É preciso entender que não há razões para acanhamento, mas sim para a busca de um tratamento. Ignorá-lo é um péssimo caminho. O transtorno pode se agravar e trazer outras implicações para a vida do indivíduo, como o início de uma depressão.

As causas para o surgimento do problema são diversas e têm sua origem em aspectos genéticos ou de natureza psicológica, como o trauma causado por alguma frustração pessoal ou pela morte de parentes e amigos. Quem sofre com o TOC tem medo da morte, de acidentes e de contrair doenças. As angústias afetam toda a rotina da família e até o indivíduo perceber que os exagerados hábitos repetitivos tratam-se, na verdade, de um problema capaz de prejudicar a si mesmo e as pessoas ao seu redor, muitas dessas relações afetivas são estraçalhadas.  É importante buscar ajuda médica, pois o diagnóstico só ocorre a partir de uma avaliação clínica. Sem um apoio especializado o transtorno é incontrolável.

Tratamento

Embora não tenha cura, o TOC é pode ser controlado por meio de psicoterapia e medicamentos, especialmente os antidepressivos. Um tratamento deve estar atrelado ao outro e não pode ser interrompido, pois o distúrbio demanda atenção durante toda a vida. Com a ajuda especializada e conscientização de que os rituais decorrentes da obsessão não têm razão de ser, os portadores do transtorno são capazes de prosseguir seu dia a dia com normalidade. O reconhecimento dos primeiros sintomas e a imediata busca por auxílio profissional garante uma melhor qualidade de vida aos portadores, transformando os excessivos rituais em meros hábitos. 

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Autor(es)

  • José Barbosa de Oliveira Filho / CRM BA 5697

    Formado em medicina pela Universidade Federal da Bahia, Especialista em Psicoterapia pela União Nacional dos Analistas Transacionais (UNAT-Brasil), Especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Professor da Escola Bahiana de Medicina.

Tratamento

Embora não tenha cura, o TOC é pode ser controlado por meio de psicoterapia e medicamentos, especialmente os antidepressivos. Um tratamento deve estar atrelado ao outro e não pode ser interrompido, pois o distúrbio demanda atenção durante toda a vida.

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