Publicada em 17/03/2017 às 00h00. Atualizada em 20/03/2017 às 09h45

Tuberculose: uma doença que persiste associada às condições socioeconômicas desfavoráveis

Neste 24 de março, Dia Mundial de Combate à Tuberculose, confira este artigo da pneumologista e professora Eliana Dias Matos

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A tuberculose é uma doença infectocontagiosa causada pelo Mycobactériumtuberculosis, também denominado bacilo de Koch. Seu contágio ocorre por via aérea, ou seja, por meio da inalação de gotículas contendo os bacilos, eliminadas por um indivíduo infectado pela doença, através de sua tosse, espirros e também pela fala.

Os sintomas mais comuns da tuberculose são: tosse com expectoração (catarro), febre baixa, em geral vespertina, sudorese noturna, perda de peso, inapetência. Pode também ocorrer hemoptise (sangramento pulmonar) e dor torácica.
É importante destacar, também, a diferença entre tuberculose ativa e tuberculose latente. Não se trata exatamente de dois tipos diferentes de tuberculose. No caso da primeira, a pessoa é portadora da doença e o tratamento tem a duração de seis meses, com duas fases: na primeira, com duração de dois meses, são usados quatro medicamentos com ação antituberculosa: rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol. Elas estão disponíveis, atualmente, em comprimidos com dose fixa combinada (também denominados 4 em 1); na segunda fase do tratamento, por sua vez, a duração é de quatro meses e são utilizados dois medicamentos: rifampicina e isoniazida.

A tuberculose latente, também chamada tuberculose de infecção latente, por sua vez, é a condição caracterizada pelo fato de o indivíduo ser portador do bacilo no organismo, mas não ter ainda desenvolvido a doença, ou seja, não tem sintomas e o resultado da radiografia de tórax também dá um resultado normal. Entretanto, esses indivíduos portadores da tuberculose latente podem evoluir para a tuberculosa ativa. O tratamento da tuberculose latente tem duração também de seis meses, mas apenas um medicamento é utilizado, a isoniazida, com o objetivo preventivo de barrar a evolução da tuberculose latente para doença tuberculosa.
Os pulmões são preferencialmente atingidos pela tuberculose, também chamada de tuberculose pulmonar. Entretanto, outros órgãos também podem ser atingidos pela tuberculose, como a pleura (película delgada que envolve os pulmões), gânglios linfáticos (ou linfonodos), cérebro, fígado, ossos, olhos etc. Embora menos frequente, essa forma de tuberculose – chamada tuberculose extrapulmonar – também pode ocorrer. Entre as formas extrapulmonares, a pleural e a ganglionar periférica são as mais comuns.

A tuberculose pode se apresentar também na forma de meningite (comprometimento das meninges pelo bacilo da tuberculose) ou de meningoencefalite (comprometimento das meninges e encéfalo). Essa é uma forma extrapulmonar mais grave e pode estar ou não associada ao comprometimento dos pulmões.  Felizmente, essa forma de tuberculose tem sido menos frequentes nas últimas décadas.

"Um ponto importante a ressaltar é que uma pessoa infectada pela tuberculose pode desenvolver a doença alguns anos depois da infecção."

Um ponto importante a ressaltar é que uma pessoa infectada pela tuberculose pode desenvolver a doença alguns anos depois da infecção. Após a entrada do bacilo da tuberculose no pulmão, as células de defesa do organismo, responsáveis pelo desenvolvimento da imunidade, podem barrar a evolução da tuberculose infecção para a tuberculose doença. Assim, um indivíduo pode ter tido contato com uma pessoa doente, ter sido infectado e, somente depois de alguns anos, desenvolver a doença ativa. Entretanto, o período de maior risco de adoecimento é nos dois primeiros anos após contato com o bacilo da tuberculose.

A tuberculose é uma doença que pode ser curada. Isso ocorre na maioria dos casos e depende do diagnóstico precoce e do uso regular dos medicamentos, pelo período de seis meses.

As ferramentas mais importantes utilizadas para prevenir a tuberculose são: (1) Vacina BCG, recomendada para uso nas crianças ao nascer ou até um mês de idade, disponível no calendário vacinal do Ministério da Saúde. Ela previne as formas mais graves de tuberculose, tais como a meningoencefálica e a disseminada (miliar); (2) Tratamento da tuberculose latente – com isoniazida – é outra forma de prevenir o desenvolvimento da doença tuberculose em indivíduos previamente infectados pelo bacilo.

Além dessas formas de prevenção, para reduzir a carga da doença na comunidade, é importante o diagnóstico e início precoce do tratamento da tuberculose ativa, pois essa estratégia reduz a possibilidade de disseminação do bacilo.

Embora haja uma crença difundida de que a tuberculose é uma “doença do passado”, infelizmente, apesar dos avanços alcançados em seu controle nas duas últimas décadas, a carga mundial da doença permanece alta, constituindo ainda um importante problema de saúde pública no Século XXI.  A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima a ocorrência de 8,6 milhões de casos em todo o mundo. No Brasil, são notificados cerca de 70.000 casos novos anualmente, com 4.500 óbitos por ano.

A tuberculose é uma doença associada à pobreza. Assim, as condições socioeconômicas desfavoráveis representam um importante fator de favorecimento do adoecimento por tuberculose. Adicionalmente, as condições inadequadas do ambiente nas periferias das grandes metrópoles, com habitações pouco ventiladas e concentrando aglomerações de indivíduos, facilitam a disseminação intradomiciliar do bacilo.

Outra condição que favorece a disseminação da doença na comunidade é a baixa escolaridade, uma vez que formas de prevenção como a utilização de um lenço ou uma máscara ao tossir, dependem do entendimento da doença. O abandono do tratamento, importante obstáculo para a cura da tuberculose, depende também do nível de escolaridade, sendo maior no grupo de menor nível educacional.

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Autor(es)

  • Eliana Dias Matos / CRM: 4930-BA

    Professora adjunta da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública – Bahiana. Coordenadora do Ambulatório de Tuberculose Multirresistente do Hospital Especializado Octávio Mangabeira (Secretaria de Saúde do Estado da Bahia – SESAB). Coordenadora da Comissão de Tuberculose da Sociedade Brasileira de Penumologia e Tisiologia (SBPT).

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