Publicada em 25/07/2018 às 10h53. Atualizada em 26/07/2018 às 08h16

Vacinas: por que é importante imunizar.

Em entrevista ao iSaúde, o biólogo e coordenador do curso de Biomedicina da Bahiana destaca a importância da imunização e critica os movimentos de oposição às vacinas. Saiba mais.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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No Brasil e em outros países, têm ganhado força os chamados “movimentos de oposição às vacinas”. São pessoas que têm acesso a escolas de qualidade e às melhores fontes de informação, mas fazem especulações estapafúrdias sobre os possíveis malefícios da vacinação. Os argumentos são os mais absurdos possíveis e negam as evidências científicas mais elementares, afirmando, por exemplo, que as vacinas provocam debilidade do organismo humano ou que comprometem o desenvolvimento do sistema imunológico, que causam alergias, autismo, retardo mental e diversos outros problemas de saúde. Esses movimentos estão sendo apontados como um dos principais fatores responsáveis por um recente surto de sarampo na Europa, no qual mais de sete mil pessoas já foram contaminadas. A disseminação de informações contra as vacinas ocorre, principalmente, em grupos de pais nas redes sociais. Nesta entrevista, o Dr. Geraldo Argolo esclarece alguns dos principais pontos do debate e alerta para os perigos da desinformação em massa que esses movimentos podem causar. Geraldo Argolo é doutor em Biologia Molecular e Celular, pela Fiocruz, e, atualmente, é professor adjunto da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública, onde é coordenador do curso de Biomedicina. 

iSaúde - Quais são as principais doenças para as quais já existem vacinas disponibilizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou também pela rede privada?

Dr. Geraldo Argolo - A rede pública abrange a maior parte das vacinas para doenças que estão relacionadas com as epidemias mais importantes. As principais vacinas que constam do calendário de vacinação do programa de imunização da rede pública são: a vacina contra a poliomielite, a vacina tríplice bacteriana, que combate a difteria, o tétano e a coqueluche (com dose de reforço para o indivíduo que está adulto); a tríplice viral, aplicada durante a infância e que protege contra caxumba, sarampo e rubéola (essencial para mulheres grávidas, sendo, portanto, crucial que o cartão de vacinas delas contemple essa vacina, especialmente por conta da rubéola, que pode causar implicações durante o desenvolvimento do embrião ou do bebê na gravidez); a vacina contra a hepatite B (recomendada para gestantes, hemofílicos e pessoas com comportamento sexual de risco, além de profissionais de saúde que lidam com materiais biológicos humanos potencialmente infecciosos), a vacina contra a febre amarela (que deve ser aplicada especialmente em quem mora ou vai viajar para regiões endêmicas para essa doença), vacina para gripe, para HPV (oferecida para meninas e meninos), para herpes zóster (é comum que pessoas acima dos 50 anos desenvolvam a doença, por terem tido contato com o vírus na infância) e, também, a vacina contra a dengue, além da vacina contra a meningite (maior parte das cepas pela rede privada).

iS - Quem tem mais de 65 anos nasceu num mundo sem vacinas. Provavelmente, teve ou conhece quem teve poliomielite, catapora, sarampo, coqueluche ou rubéola, antigamente conhecidas como “doenças da infância”. Essas doenças hoje estão controladas graças às políticas de vacinação?

Dr. Geraldo Argolo - Aqueles que hoje são adultos na faixa etária dos 55 anos para cima estiveram entre as crianças que, antigamente, eram acometidas principalmente por catapora, coqueluche, rubéola, poliomielite, dentre outras. Hoje não nos deparamos mais com esses quadros por conta da eficiência dos programas de vacinação. Esses programas, no Brasil, têm uma referência muito boa, inclusive internacionalmente, pelo seu grau de efetividade e eficiência, o que permitiu que o país fosse visto como exemplo para todo o mundo na questão do controle de doenças. Para se ter uma noção da repercussão da eficácia, algumas dessas doenças foram tidas como banidas ou erradicadas, a partir dessas ações de profilaxia, com comprovação da Organização Mundial de Saúde a partir de 2016. No entanto, com o passar dos anos, houve falhas nesses programas de vigilância, o que permitiu que algumas dessas doenças retornassem, já que o índice de vacinação vinha baixando.

"Embora sejam(...) motivados pela ignorância e por crenças em pseudociência, ou mesmo inteiramente baseados em “achismos”, eles não deixam de ser uma ação criminosa que vem prejudicando os programas de imunização em todo o mundo..."

iS - Como o senhor avalia a existência desses “movimentos de oposição a vacinas” e a que se pode creditar essas iniciativas de desinformar a população e espalhar obscurantismo?

Dr. Geraldo Argolo - Esses movimentos de oposição à vacinação são iniciativas criminosas. Embora sejam, na minha opinião, motivados pela ignorância e por crenças em pseudociência, ou mesmo inteiramente baseados em “achismos”, eles não deixam de ser uma ação criminosa que vem prejudicando os programas de imunização em todo o mundo (já que isso não vem acontecendo só no Brasil), gerando, assim, um impacto que vai além da esfera desses indivíduos. Ou seja, é uma iniciativa que não prejudica apenas quem se envolve com ela, prejudica toda uma população.

iS - O Brasil é reconhecido, mundialmente, como o país que organizou o maior programa de vacinações gratuitas. O senhor acredita que a disseminação dessas informações falsas sobre as vacinas pode comprometer os resultados desse trabalho?

Dr. Geraldo Argolo - A disseminação dessas informações inverídicas, dessas fake news, encontrou campo fértil na perspectiva de uso da internet. Hoje a gente pode também justificar essas falhas na vacinação atribuindo-a ao poder que as mídias têm de veicular, velozmente, essas informações falsas e de encontrar e agrupar “adeptos” para que permaneçam divulgando isso, pessoas que acreditam nisso e prestam esse desserviço para a população e para a saúde pública.

iS - A curto prazo, numa hipótese de que a população passe a aderir a essas campanhas criminosas, quais as principais doenças que têm possibilidade de grande aumento de contágio e por quê?

Dr. Geraldo Argolo - A eficiência da vacinação depende não apenas do poder público, mas também do engajamento da população. Ela depende de que a população se movimente positivamente para combater essas informações falsas e aumente a sua aderência às campanhas de prevenção. Isso porque não basta que eu, em minha casa, me vacine e tenha essa expectativa de que a minha família se vacine. É necessário que um número, definido como estratégico, se vacine para que a gente consiga estabelecer um “efeito rebanho”, que é aquele que protege toda a comunidade por um efeito de bloqueio, livrando do risco e protegendo aqueles que se vacinam daqueles que não se vacinam. Então, sensibilizar essa população é um dos desafios das autoridades de saúde pública do Brasil.

iS - O que o senhor acha que deve acontecer com os médicos que prescrevem vitaminas, extratos de plantas ou vacinas homeopáticas em lugar das vacinas que fazem parte do calendário do Ministério da Saúde? 

Dr. Geraldo Argolo - Profissionais de saúde que interferem nas campanhas vacinais, de imunização, a partir de ideias impróprias e, inclusive, prescrevendo ou recomendando o uso de substâncias de eficácia não comprovada cientificamente e não estabelecidas pelos órgãos públicos e autoridades em saúde deveriam ser punidos por esses órgãos e pelas autoridades civis também. Eles precisam receber algum tipo de reprimenda que sirva como exemplo. É inadmissível que as pessoas que são as principais responsáveis pela saúde e por convencer outras pessoas a adotarem práticas saudáveis para sua própria saúde e para a saúde da população recomendem essas práticas nocivas, que só trazem malefícios para toda a saúde no Brasil e no mundo.

iS - O vírus do HPV está relacionado a 84% dos casos de câncer de colo de útero. Mesmo esse tipo de tumor podendo ser prevenido e havendo, nos últimos anos, diversas políticas públicas que aumentaram a disponibilidade da vacina contra o HPV na América Latina, as taxas de adesão à vacinação na região permanecem muito abaixo do esperado. É possível que isso já seja resultado dessas campanhas?

Dr. Geraldo Argolo - Além de todos esses problemas gerados pelas campanhas “antivacinas” de que estamos falando, a adesão à vacinação contra o HPV ainda enfrenta outro problema: a distância na qual a população se coloca da situação de pegar o vírus. O HPV tem uma grande prevalência no Brasil e, realmente, está intimamente ligado aos casos de câncer de colo de útero, de pênis etc. E não há uma conscientização devida que motive os indivíduos a vacinarem os seus filhos, suas filhas e a si próprios. Guarda-se aí essa distância, que é um efeito parecido com a questão do comportamento de risco que os jovens hoje adotam – na verdade, a população como um todo – em relação ao contato sexual desprotegido, por achar ou por entender que a contaminação por HIV ou o desenvolvimento de Aids seja algo muito distante da sua realidade.

iS - Em 2016, a cobertura da segunda dose da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, teve adesão de apenas 76,7% do público-alvo. No âmbito das universidades e dos centros de pesquisa, como vêm sendo recebidas essas notícias? 

Dr. Geraldo Argolo - Há defasagem ou falha nas campanhas de vacinação, principalmente na prevenção das doenças que já estavam controladas ou haviam sido banidas e que têm a ver com a vacina tríplice viral, por exemplo. Essa vacina precisaria estar com cobertura efetiva de 95%, mas está com um índice muito abaixo disso. Diversos estados brasileiros vêm despontando com epidemias já com bom grau de importância, tanto na região Norte quanto na região Sudeste. A gente já vê casos de muitas crianças sendo infectadas e desenvolvendo essas doenças. Isso também tem relação com as ondas de migração, tanto da África para a América do Sul quanto da Venezuela e outros países do continente americano para o Brasil. Muitas dessas pessoas vêm de países que não adotaram programas de imunização e práticas vacinais. Geralmente, elas entram no Brasil ilegalmente e estão aptas a transmitir essas doenças a pessoas que não se vacinaram. Então, temos aí portas de entrada para o desenvolvimento ou a reemergência dessas doenças no nosso país. 

iS - Há programas ou projetos para combater a desinformação?

Dr. Geraldo Argolo - Não é do conhecimento público que haja programas ou projetos para combater a desinformação causada por esses movimentos “antivacinas”, ou, se existem, são tímidos e incipientes. O momento é de bastante apreensão do ponto de vista da academia, de um modo geral, e das pessoas que trabalham na rede pública de saúde, com quem eu tenho conversado e discutido essas questões. Uma boa sugestão de campanha é vincular benefícios, como o Bolsa Família, dentre outros, à necessária apresentação das cadernetas vacinais dos filhos dos cidadãos, para que tenham acesso a esses benefícios.

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